Margarida, Margarida Cabaço, 96% Syrah, 4% Viognier, Alentejo, 2008

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Se algum dos nossos leitores chegou a pensar, dadas as últimas publicações, que o Blogue do Syrah já teria apresentado todos os grandes Syrah de Portugal, desengane-se, que ainda falta uma mão cheia deles.

Aqui está hoje um, que é o Syrah de Margarida Cabaço, e que desde já podemos dizer tem algumas particularidades únicas.

Primeiro é o facto de ser um Syrah não a 100%, como é de nossa preferência, mas sim a 96%, já que os restantes 4% são Viognier, como é consensual. Mas espantoso é o facto de que as uvas Syrah de Estremoz abafam de tal modo a casta branca que esta passa despercebida comparativamente com outros Syrah cuja composição é semelhante.

Em segundo lugar é um Syrah que, sem ser a 100%, obtém da nossa parte a classificação de 18 em 20. Com nenhum outro Syrah nas mesmas circunstâncias tal tinha acontecido.

Finalmente é um Syrah feminino, e aqui a nossa vertente marialva tem de dar o braço a torcer: estas duas senhoras, Margarida Cabaço e Susana Esteban,  percebem do ofício da vinha melhor que muitos criadores de vinho do sexo oposto.

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Margarida Cabaço é a produtora cujo nome é marca do topo de gama monovarietal que produz. Em cada ano é escolhida a casta que mostrou potencialidades capazes de fazer um grande vinho. Por exemplo o Margarida que se encontra no mercado com mais facilidade é o de 2009 feito a 100% da Alicante Bouschet. Em 2008 tinha cabido a vez ao Syrah. Safra única até agora pelo menos.

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A enóloga de serviço é a Susana Esteban. Não é o primeiro Syrah que esta galega radicada em Portugal faz, já aqui falámos dela a propósito do Solar de Lobos, e por isso merece que o Blogue do Syrah muito brevemente lhe dê a atenção devida!

O Margarida Syrah 2008 foi vinificado em lagar e estagiado parcialmente em barricas de carvalho francês; fresco, fruta evidente, fumado, notas especiadas, estruturado ainda com os taninos por domar, final longo, gastronómico. Uma surpresa espantosa! As notas de prova dizem que se trata de um Syrah “complexo e austero, ameixa preta, especiarias. Muito carácter na boca vigorosa, seca, com sugestões de alcatrão e bagas esmagadas. Excelente acidez e frescura de conjunto.”  A graduação alcoólica é de 14,5% e teve uma produção de apenas 4.200 garrafas. Estagiou um ano em barricas de carvalho francês usadas. “Em 2008 elegi a casta Syrah como base para este vinho. As uvas foram vinificadas em lagar com pisa pé e fizeram estágio em barricas de carvalho francês” palavras da própria Margarida Cabaço.

A grande falha é que infelizmente O Monte dos Cabaços, casa mãe do nosso Syrah de hoje, não tem site ou qualquer outro meio de informação onde aqui os felizes escribas possam ir beber matéria complementar informativa. Senhores produtores, façam Syrah genial, sim, sempre e em primeiro lugar, mas depois partilhem informação… aqui fica o reparo construtivo!

Assim mesmo lá conseguimos repenicar por aqui e por ali algo mais que contar. Cá vamos.

Margarida Cabaço plantou as primeiras vinhas em 1992, vendendo sempre as uvas a produtores de vinho da região. Em 1994 faz nascer o restaurante São Rosas, em Extremoz, para partilhar outra das suas paixões: a culinária. O São Rosas é um dos melhores restaurantes do Alentejo. As bochechas de porco preto com migas de pão é um prato simplesmente imperdível, embora a metade vegan do Blogue do Syrah seja lesta em discordar. Mas isso são contos que não são para aqui chamados. É necessário reservar um espaço para as deliciosas sobremesas com doces conventuais. Começando a perceber a importância da união comida e vinho, e curiosa de ver o resultado final, resolveu começar a transformar as uvas que produzia em vinho.

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Surgiu assim o Monte dos Cabaços, em 2001, laborado em adegas de 2 amigos. Com uma tiragem inicial de 50.000 garrafas, o vinho teve imediatamente grande sucesso e a partir de então foram surgiu mais um rótulo além do Monte dos Cabaços Branco, o .Com, tendo este último a participação do filho mais velho de Margarida Cabaço, Tiago Cabaço, que hoje tem uma produção independente de belos rótulos e safras, um dos quais um Syrah, que já foi apresentado aqui, aliás foi com esse mesmo Syrah que começamos esta aventura bloguista.

Neste momento as suas vinhas situadas na aldeia de Arcos, a 6 km de Estremoz, ocupam 30 hectares que dão origem a aproximadamente 100.000 garrafas entre branco e tinto. As uvas são provadas e escolhidas na vinha seguindo os mesmos princípios com que escolhe os produtos para confeccionar os pratos que faz no São Rosas. A vindima é manual e parte da uva é pisada em lagar, sendo a restante fermentada em cubas. Os melhores lotes vão para barricas novas de carvalho francês, e após um estágio de 10 a 12 meses poderão dar origem a um reserva, quando a qualidade o justifica. O Monte dos Cabaços produz vinhos encorpados, com uma estrutura equilibrada onde se privilegia a fruta fresca e o maduro arredondado pela madeira. Após o sucesso do vinho Monte dos Cabaços, foram lançados os vinhos Margarida branco e tinto, uma justa homenagem a esta senhora.

Actualmente a casa produz os rótulos: Monte dos Cabaços Branco, Margarida Branco, Monte dos Cabaços Tinto, Monte dos Cabaços Reserva Tinto e Margarida Tinto. E todos têm um toque especial: os desenhos estampados nos rótulos são todos da própria Margarida Cabaço. É um design simples mas de grande efeito visual. Gostamos muito!

No outro dia disseram-nos que das sobras de vinho ainda se pode fazer cubos de gelo. Ficámos abstrusos… O que são sobras de Syrah?

Se for o Syrah da Margarida, sobras é coisa que nunca haverá, afiançamos!

 

Classificação: 18/20                                                     Preço: 20,00€


 

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