Category Archives: Alentejo

A região dos grandes Syrah portugueses…

Tapada de Coelheiros, Herdade dos Coelheiros, 100% Syrah, Alentejo, 2007

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Estamos novamente no Alentejo, região de Arraiolos, para conhecer o syrah da Herdade dos Coelheiros. Trata-se de um syrah de safra única, mas de qualidade superior.

A Herdade dos Coelheiros é uma empresa familiar, constituída em 1981. Uma década depois, em 1991, surge o seu primeiro vinho sob a chancela de Tapada de Coelheiros e daí para cá tem pautado a sua história vínica pela qualidade dos seus produtos, colheita após colheita.

Situado na freguesia da Igrejinha, no concelho de Arraiolos, o Monte dos Coelheiros estende-se por 800 hectares, onde a par da vinha mantém um pomar de nogueiras, montado de sobro, com caça maior e menor, além do olival. Esta variedade de culturas permite à empresa o desenvolvimento de diferentes turismos (eco, agro, cinegético e, claro, o enoturismo).

Desde então, o portfólio de vinhos e de outros produtos foi crescendo gradualmente, resultante não só de uma gestão cuidada dos recursos naturais da propriedade, mas também fruto de grande dedicação e desenvolvimento das diferentes actividades de produção da terra que permitem a produção de produtos de excelência.

O ano de 2007 foi excepcional nesta região para a casta syrah, e isso motivou o enólogo residente da Herdade dos Coelheiros, Luís Maia, com quem tivemos a oportunidade de conversar, assim como o enólogo consultor António Saramago, a fazerem uma experiência: produzir um monovarietal syrah de unicamente 1800 litros, que deu para encher 2167 garrafas.

Esteve 12 meses em pipas de carvalho francês, passou para pipas de carvalho novo durante mais 12 meses, e depois esteve em estágio em garrafa durante mais 24 meses. Este syrah só foi lançado no mercado em 2012. O enólogo Luís Maia confidenciou-nos que já não há muitas garrafas disponíveis.

Este Syrah “revela-se “untuoso”, cor rubi acentuada, elegante nos seus 14,5 de graduação álcoólica.”

Em resumo estamos perante um syrah de uma safra única, com uma muito pequena produção, que já está a acabar, e que demorou vários anos a ser produzido. Logo a conclusão óbvia é que se trata de um syrah do qual não nos podemos esquecer… e que urge procurar pelo que ainda resta dele!

Como escreveu Mário Quintana a propósito do melhor vinho:

“Por mais raro que seja, ou mais antigo,

Só um vinho é deveras excelente

Aquele que tu bebes, docemente,

Com teu mais velho e silencioso amigo.”

 

Classificação: 17/20                                           Preço: 19,50€

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Aldeias de Juromenha, Herdade das Aldeias de Juromenha, 100% Syrah, Alentejo, 2010

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Apresentamos hoje mais um Syrah de peso, e que ganhou duas medalhas de ouro em 2010 e 2011 no já célebre concurso internacional “Syrah du monde”, o mais prestigiado concurso exclusivamente dedicado à casta Syrah. Um concurso vale o que vale, não substitui o gosto pessoal do consumidor, mas não deixa de ser uma indicação de qualidade. Nos Syrah como noutras coisas os milagres não existem. Se o Syrah da Herdade das Aldeias de Juromenha ganhou duas medalhas de ouro, no “Syrah du monde” é porque é mesmo bom!

As notas de prova dizem-nos que se trata de um Syrah de “cor retinto, aroma frutos vermelhos e compota, bons taninos, volumoso, equilibrado com boa acidez que lhe permite ter longevidade.”

Em conversa com o José Caldas, da área comercial da Herdade mas mostrando estar em condições de responder às nossas interrogações, ficamos a saber que o Syrah se produz desde 2005 e que já está no mercado o de 2011. Nestas últimas safras têm sido produzidas 13000 garrafas e agora vem a grande revelação: todas as garrafas são dedicadas ao mercado interno!!! O Syrah da Herdade das Aldeias de Juromenha é todo comercializado em Portugal. Para um Syrah português é uma situação bastante rara. Com o tempo esperamos que esta situação mude e que se possa dizer dentro de pouco tempo que toda uma safra de Syrah que se vende no mercado interno será algo de bastante natural. Seria um bom sinal!

Depois de 2005, veio a safra de 2007, 2008, 2009,e 2010, sendo estas últimas duas as que motivaram este texto! O José Caldas frisou bem que o syrah era sempre reserva, ou seja, dez meses de estágio em barricas de carvalho francês e americano e com uma graduação alcoólica de 14%. A safra de 2010 foi em parte já vendida para a China. A de 2011 está no mercado e no fim de 2015 sairá a safra de 2012. A de 2013 sairá no fim de 2016 e a de 2014 sairá no fim de 2017. Já temos garantido Syrah de qualidade para os próximos anos!

Outro feito que o Syrah da Herdade das Aldeias de Juromenha realizou foi o de ter ficado em segundo lugar como o segundo vinho mais vendido nos supermercados Pingo Doce em 2010 tendo ficado em primeiro lugar um vinho do Douro da casa Ferreirinha – o Papa Figos.

A Herdade das Aldeias é uma empresa agrícola situada a cerca de 15km da Cidade de Elvas e junto da Vila de Juromenha com vista para o Rio Guadiana. Está inserida numa zona histórica com grande tradição na arte de fazer vinho. Este projecto em particular está em desenvolvimento desde 1986.

A adega está rodeada por 70ha de vinha própria. Este sistema promove um aumento na eficiência na vindima, uma vez que reduz o tempo desde a colheita até ao processamento das uvas. No conjunto da vinha estão plantadas predominantemente castas autóctones portuguesas, encontrando-se, também, algumas castas francesas. No que se refere a uva tinta existe Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Syrah e Touriga Nacional.

O clima é caracterizado por uma Primavera e Verão excessivamente quentes e secos. A exposição solar regista também valores bastante altos, em particular nas semanas anteriores à vindima, condições que contribuem para uma perfeita maturação das uvas.

De facto as condições são extremamente favoráveis à síntese e acumulação de açucares e concentração de aromas e cor na película da uva. A bacia hidrográfica é dominada pelo Rio Guadiana e o tipo de solo é predominantemente xistoso.

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Na vinha a produção é controlada para obter entre 7 a 8 toneladas por hectare. Utilizando este método de produção garante-se uma excelente qualidade dos vinhos. Na poda utiliza-se o método manual, na colheita é utilizado o método manual e mecânico.Todo o vinho é produzido a partir de uva colhida na Herdade das Aldeias. No que respeita à vinificação segue-se o processo tradicional em cubas de inox com controlo de temperatura. A maioria dos vinhos tintos estagia em barricas de carvalho francês e americano. Todos os processos desde a vinificação até ao engarrafamento são realizados nas instalações.  No engarrafamento são utilizadas rolhas de cortiça natural portuguesa.

A produção actual é de cerca de meio milhão de litros por ano, tendo uma capacidade de armazenamento de 600.000 litros.Todos os processos desde a vinificação até ao engarrafamento são realizados nas instalações da adega.

Um Syrah a ter sempre presente, com direito a quadra popular:

Priere du Bordelais
(poema popular francês)

Mon Dieu…
Donnez moi la santé pour longtemps
De l’amour de temps en temps
Du boulot, pas trop souvent
Mais du bordeaux tout les temps.

 Tradução e adaptação do Blogue do Syrah

Prece do amante de Syrah

Meu Deus…
Dá-me a saúde por muito tempo
Amor de vez em quando
Trabalho, não muitas vezes
Mas Syrah todo o tempo!

Classificação: 17/20                                           Preço: 9,00€

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CEM REIS, Herdade da Maroteira, 100% Syrah, Alentejo, 2012

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O CEM REIS Syrah congrega em si dois aspectos que, como consumidores apaixonados pela casta, muito prezamos. Em primeiro lugar porque se trata de um Syrah de qualidade superior. Em segundo, e ao contrário do que é habitual, a maior parte da produção fica e é consumida em Portugal.

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Em conversa telefónica com o produtor Philip Mollet, foi confirmado que 70% da toda a produção é efectivamente para o mercado interno e somente os restantes 30% é que vão para o mercado externo. Os países são a Holanda, a Alemanha e a Suíça na Europa. Fora da Europa o Brasil e também Macau.

O CEM REIS Syrah teve a sua primeira edição em 2005 com 8000 garrafas. As safras seguintes de 2007, 2008, 2009, 2010 e 2011 assistiram ao aumento gradual mas consistente da produção até se atingir as 15000 garrafas nas últimas safras e igualmente na última de 2012.O enólogo responsável é António Maçanita.

O clima que dá origem a este Syrah é típico do mediterrâneo continental ou seja, dias quentes e secos, com noites muito frias. Os solos como já é habitual para a nossa casta são muito pobres de origem xistosa ou granítica.

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Diz-nos a ficha técnica que a vindima é manual e muito selectiva, feita em caixas de 20 kg. “Transporte para adega em camião de frio. Vinificação atípica para o Alentejo. Fermentações alcoólicas e malolática naturais e espontâneas; “Cuivason” de mais de 20 dias.” Estagiou 14 meses em barricas novas: 70% em carvalho francês e 30% em carvalho americano. A graduação alcoólica é de 15,0%. As notas de prova dizem-nos que possui “uma cor violeta escuro concentrado. Em relação ao aroma tem nariz exuberante, notas quentes de frutos pretos com notas mentoladas, terminando com notas a amêndoas tostada da barrica. Na boca o ataque é cheio, redondo quente e carregado de aromas. Estrutura firme com boa persistência.”

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A Herdade da Maroteira está localizada no recanto da Serra D´Ossa, a 20km de Estremoz e a 35km de Évora. É uma das propriedades agrícolas pertencente a uma das famílias Anglo-Portuguesa estabelecidas na Região do Alentejo, há mais de cinco gerações. Abrangendo uma área de 540 hectares, dedica-se à preservação do montado de sobro e azinho, ao turismo, através de três unidades de alojamento, e à vitivinicultura.

Foi em 2003 que 10 hectares de vinha foi plantada numa zona de vale aberto. A escolha das castas recaiu sobre a Alicante Bouschet, Aragonêz, Touriga Nacional e Syrah. Grande parte da produção vitícola é vendida; apenas uma pequena selecção – as uvas de qualidade superior -, é aproveitada para a produção de vinho da Herdade da Maroteira.

Como dizia Ernest Hemingway “o vinho é uma das substâncias mais civilizadas do mundo, uma das coisas materiais levadas ao mais alto grau de perfeição e que oferece mais prazeres e satisfações que qualquer outra que se compre com intenções puramente sensoriais”.

E por último a grande confidência que generosamente Philip Mollet nos agraciou. Um projecto vinícola que foi pensado há 8 anos e que verá a luz este ano. A produção do Syrah que poderá ser “o Syrah de 2015” : o “MIL REIS”! No próximo mês de Março será engarrafado e ficará em garrafa durante 6 meses. Terá a data de 2013 e só se produzirão entre 3000 a 3500 garrafas. Verá o dia lá mais para o fim do ano. Que ninguém tenha dúvidas, algumas dessas garrafas virão para os editores do Blogue do Syrah.

A grande questão que se coloca é a seguinte: será capaz o MIL REIS, e tendo em conta os critérios pelos quais nos pautamos na classificação dos Syrah, conseguir a pontuação máxima, ou seja, 20 valores? Teremos que esperar até ao fim do ano para poder responder, mas todos os amantes do Syrah sairiam beneficiados se isso acontecesse…
Torcemos para que sim!

Classificação: 18/20                                           Preço: 15,00€

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Syrah da Peceguina, Herdade da Malhadinha Nova, 100% Syrah, Alentejo, 2010

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Voltamos ao Alentejo para apresentar um Syrah de excepção!

O Syrah da Herdade da Malhadinha Nova, em Albernoa, que possui 27 hectares de vinha. Um syrah poderoso! 100% como convém! Teor alcoólico de 15,5%.

Foram feitas 6195 garrafas de 0,75l e 100 garrafas de 1,5l.

Em conversa com o enólogo da casa, Nuno Gonzalez, ficamos a saber que esta safra é somente a segunda que a Herdade da Malhadinha Nova fez de monocasta syrah. A primeira é de ano anterior, 2009, e tratou-se de um lote muito pequeno de 2123 garrafas, que foi todo adquirido por um restaurante de Lisboa. Alguém saberá qual é?

O Syrah foi envelhecido em barrica. As uvas foram colhidas manualmente para caixas de 12 Kg e seleccionadas na mesa de escolha. A fermentação ocorreu em lagar a temperatura controlada com várias pisas durante todo o processo. Estágio de 18 meses, e não de 12 meses como diz na ficha técnica, em barricas novas de carvalho francês. Na ficha é dito, e nós confirmamos, que “espere pois no seu copo um vinho impetuoso, viril e carnudo, que nos deleita com o seu fruto maduro e que impressiona pelo seu corpo.” Também é dito que poderá ser guardado nas condições adequadas durante os próximos 10 anos!

A Malhadinha Nova é uma típica herdade familiar alentejana, situada em Albernoa, no coração do Baixo Alentejo. Desde 1998, a paixão e empenho da família levaram à transformação de terras havia muito abandonadas em solos capazes de dar vida a produtos genuinamente alentejanos e de elevada qualidade, dedicando-se à produção de vinhos e à criação de animais de raça autóctones em total harmonia com a Natureza e rigoroso regime de protecção com denominação de origem protegida.

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As perfeitas condições climáticas do Alentejo para este tipo de actividade, os solos xistosos, as suaves encostas bem drenadas da propriedade e as castas criteriosamente selecionadas (Touriga Nacional, Aragonêz, Trincadeira, Alicante Bouschet, Syrah, Cabernet Sauvignon, Tinta Miúda para os tintos e Arinto, Roupeiro, Antão Vaz, Chardonnay, Alvarinho, Verdelho e Viognier para os brancos) formam o terroir da Malhadinha Nova, com condições únicas para a produção de vinhos de grande qualidade.

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A Adega da Malhadinha Nova, tradicional mas sofisticada, reúne um conjunto de características muito favoráveis à obtenção de vinhos distintos. Situada a escassos metros da vinha, a adega aproveita a inclinação do terreno, permitindo que todo o processo de vinificação se faça por gravidade. Como já referido, a uva é recebida em pequenas caixas de 12kg e descarregada directamente para os modernos lagares refrigerados, onde a pisa a pé conjuga na perfeição métodos tradicionais de vinificação e utilização de tecnologia por forma a obter da uva todo o potencial que a Natureza lhe deu na vinha. A cave de barricas, escavada na encosta a vários metros de profundidade, confere ao vinho excelentes condições para o envelhecimento.

A vinificação ocorre de forma tradicional em lagares, graças à estrutura da adega em vários níveis, todo o processo é feito por gravidade, evitando a utilização de bombas susceptíveis de retirar muita da qualidade pretendida.

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Tudo serve para em resumo dizer que estamos em presença de um syrah que merece toda a nossa consideração e apreço na degustação, embora neste momento, como nos confidenciou Nuno Gonzalez, não esteja garantida, com a certeza que o Blogue do Syrah desejaria, uma próxima safra. Só daqui a mais alguns meses é que essa decisão será tomada e nessa altura tudo poderá acontecer. Cá estaremos para dar a notícia em primeira mão!

Caro leitor, se conseguir arranjar o Syrah da Peceguina 2010, lembre-se da frase de Alexander Fleming: “A penicilina cura os homens, mas é o syrah que os torna felizes!”

Este Syrah é um óptimo exemplo de que isto é verdade!

Classificação: 18/20                                              Preço: 26,00€

 

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Scala Coeli, Adega da Cartuxa, 100% Syrah, Alentejo, 2010

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E regressamos de novo ao Alentejo para apresentar um Syrah que nos leva directamente ao céu, quase literalmente. Scala Coeli é o nome, que em latim significa “escada para o céu” . Este é justamente um daqueles syrah que nos faz dizer que os melhores syrah do mundo se encontram em Portugal.

Syrah que deve o seu nome ao Mosteiro de Santa Maria Scala Coeli, mais conhecido por Mosteiro da Cartuxa, local onde os monges Cartuxos permanecem em silêncio e oração. Produzido a partir das melhores vinificações do ano, foi produzido pela primeira vez em 2005.

Mas vamos então contar um pouco de história, e de cultura, que se impõe para percebermos como nasce este grande syrah! E como está carregado de história!

Começamos pela Fundação Eugénio de Almeida, que é herdeira de uma longa tradição no sector vitivinícola, com a vinha a fazer parte da tradição produtiva da Casa Agrícola Eugénio de Almeida desde o final do Séc. XIX. As uvas, que atualmente resultam da produção obtida em 600 hectares de vinha, são vinificadas na moderna e sofisticada Adega Cartuxa – Monte Pinheiros, herdade que outrora foi centro de lavoura da Fundação Eugénio de Almeida. A Adega Cartuxa – Quinta Valbom, antigo posto Jesuíta, onde já em 1776 funcionava um importante lagar de vinho, é desde 2007 o centro de estágio de vinhos e sede do Enoturismo Cartuxa.

A Fundação Eugénio de Almeida é uma instituição de direito privado e utilidade pública, sediada em Évora. Os seus estatutos foram redigidos pelo próprio fundador, o Eng. Vasco Maria Eugénio de Almeida, Conde de Villalva, quando da sua criação em 1963. A missão institucional da Fundação concretiza-se nos domínios cultural, educativo, assistencial, social e religioso. A produção obtida nas vinhas é vinificada num local histórico e sagrado, a Adega da Cartuxa, situada na Quinta de Valbom, em Évora. A adega está instalada num edifício que pertenceu à Companhia de Jesus em 1580 e que na época era a sua casa de repouso. Com a expulsão dos jesuítas de Portugal pelo Marquês de Pombal, este edifício foi integrado aos Bens Nacionais em 1755. No ano seguinte, já funcionava no local um importante lagar de vinho que absorvia a produção vinícola da região. Em 1869 o edifício foi vendido em hasta pública e adquirido por José Maria Eugénio de Almeida, avô do Eng. Vasco Maria Eugénio de Almeida. Próximo à Adega da Cartuxa, fica o bonito Mosteiro da Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli, fundado em 1587 e que retomou em 1960 a actividade religiosa contemplativa, depois de vultosas obras de restauro empreendidas pelo Conde de Villalva. No silêncio das caves deste Mosteiro, vários vinhos da Fundação fazem o seu estágio em garrafa.

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Sempre com a preocupação do enquadramento arquitectónico num edifício muito rico em história, a Adega da Cartuxa passou por várias reformas e ampliações nos últimos anos. Hoje é uma das mais modernas e bem equipadas do Alentejo, toda ela cercada por vinhas e com uma loja de vinhos cujos preços são 30% a 40% mais baratos que nas garrafeiras.

A Adega da Cartuxa, na Quinta de Valbom, está intimamente ligada à Companhia de Jesus. Fundada por Santo Inácio de Loiola em 1540, a Ordem tinha uma vocação missionária ligada ao ensino, tendo sido justamente nessa vertente  que mais se destacou a sua presença em Évora, primeiro com a criação do Colégio Espírito Santo por volta de 1551 e, posteriormente, com a criação da Universidade, em 1559. No ano de 1580 o padre jesuíta Pedro Silva, reitor da Universidade, quis adquirir a Quinta de Valbom para aí alojar o corpo docente da Universidade. A construção do que viria assim a ser a Casa de Repouso dos Jesuítas demorou cerca de 10 anos e resultou num edifício com múltiplos alojamentos, refeitório e capela.
Em 1759, com a expulsão da Companhia de Jesus do país pelo Marquês de Pombal, a Quinta, com a sua edificação, passou a integrar os bens do Estado tendo, alguns anos mais tarde (1776), e pela primeira vez, foi equipada com um lagar de vinho que rapidamente ganhou importância na região.

A proximidade do Convento da Cartuxa, erigido em meados do séc. XVI, determinou a designação por que ficou conhecida até aos dias de hoje: Adega Cartuxa. Em 1869 o bisavô do instituidor, José Maria Eugénio de Almeida, adquiriu a Quinta, colocada à venda no contexto do longo processo de aplicação das políticas liberais de Mouzinho da Silveira com a nacionalização dos bens da Igreja e da Coroa e a sua posterior venda a particulares. Depois da sua morte viria a ser o seu filho, Carlos Maria Eugénio de Almeida, avô do fundador, a empenhar-se na continuidade e expansão da produção da Casa Agrícola Eugénio de Almeida.

Foi da sua iniciativa a plantação dos vinhedos que constituíram a origem mais remota dos vinhos da Fundação. Com a expansão e sucesso progressivos da produção vitivinícola da Instituição, a Adega da Cartuxa, instalada no antigo refeitório da Casa de Repouso dos jesuítas foi sendo alvo de melhoramentos. Desses, destaca-se a grande reestruturação que ocorreu entre 1993 e 1995, e que permitiu o reequipamento e ampliação de todos os sectores da adega aumentando-se de forma considerável o seu potencial de vinificação e a sua capacidade de armazenagem.

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A nova Adega Cartuxa, situada na Herdade de Pinheiros, permite receber a totalidade da uva produzida nas vinhas da Fundação, e tem na sua génese três premissas tecnológicas que a distingue das demais: efectiva capacidade de refrigeração, possibilidade de triagem na totalidade da uva à entrada na adega e movimentação e transferência de massas unicamente por gravidade.
Da linha de engarrafamento totalmente automatizada instalada na Adega Cartuxa saem anualmente cerca de quatro milhões de garrafas, distribuídas por vinho branco, rosé e tinto das marcas Vínea, EA, Foral de Évora, Cartuxa, Scala Coeli e o mítico Pêra-Manca. É na excelência da matéria prima que assenta toda a produção vinícola da Fundação.

Até apetece neste momento citar o “Soneto do Vinho” de Jorge Luís Borges:

Em que reino, em que século, sob que silenciosa
Conjunção dos astros, em que dia secreto
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
E singular ideia de inventar a alegria? 

Com outonos de ouro a inventaram.
O vinho flui rubro ao longo das gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Nos invada sua música, seu fogo e seus leões. 

Na noite do júbilo ou na jornada adversa
Exalta a alegria ou mitiga o espanto
E a exaltação nova que este dia lhe canto 

Outrora a cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver minha própria história
Como se esta já fora cinza na memória.

Scala Coeli surge no cume deste nosso mito, e é um nome desde há muito ligado a Eugénio de Almeida. Trata-se de um convento, mesmo à saída de Évora, abandonado no início do século. Vasco Eugénio de Almeida recuperou-o e devolveu-o à Ordem dos Monges da Cartuxa, sendo hoje um convento de clausura e silêncio. Na sua história conta-se ainda  ter sido em tempos a Escola Agrária e Agrícola. Este bonito convento serviu de inspiração para um grande vinho, que tem sido feito todos os anos com castas diferentes: o famoso Scala Coeli, da Cartuxa.

Chegando ao que mais nos interessa, o Syrah Scala Coeli foi feito por duas vezes: em 2006 com 14,5 de graduação alcoólica e em 2010 com 15,5 de graduação alcoólica. Por detrás deste néctar está Pedro Baptista, o enólogo premiado da Fundação, reconhecido pela qualidade e solidez dos vinhos que assina. Diz a ficha técnica que “As uvas passaram por um processo de maceração pré-fermentativa a frio, seguida de fermentação alcoólica à temperatura de 28ºC e de maceração prolongada. Período de encuba total de quarenta dias e estágio de quinze meses em barricas novas de carvalho francês. De cor granada, apresenta um aroma intenso e elegante. Na boca apresenta uma excelente estrutura com taninos suaves, boa acidez, terminando com ampla sensação de volume.”

Este syrah fantástico só tem mesmo um problema, e não é pequeno: o preço!, que se pode considerar exorbitante e que está muito acima da média para a bolsa da maioria, o que torna este syrah inacessível para muitos.

O preço apresentado abaixo é meramente indicativo, pois em muitos lugares o valor é superior em 20%. No entanto, se aquilo que foi dito sobre este syrah vos tocou de alguma maneira, e estiverem na disposição de o experimentar, deixem-nos dar uma pequena dica que se poderá tornar valiosa. No caso de não ser oportuno adquiri-lo na loja da Adega da Cartuxa, em Évora, devido à distância, tentem perguntar na Estado de Alma. O gerente Tiago Paulo consegue fazer maravilhas com o preço de muitos syrah, este inclusive!

E olhem que vale mesmo a pena a experiência, pelo menos uma vez, já que é algo inolvidável. Por exemplo no jantar da passagem de ano ou mesmo no almoço de Ano Novo!

Já agora, a equipa do Blogue do Syrah deseja a todos os leitores presentes e futuros um óptimo 2015, bem acompanhado com syrah de qualidade, de preferência portugueses!

Classificação: 19/20                            Preço: 55,00€

 

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Monte Seis Reis, 100% Syrah, Alentejo, 2008

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E regressamos ao Alentejo, para dar a conhecer um Syrah de excelsa qualidade!
Seis Reis, de 2008, 100% Syrah, terceira safra com 7000 garrafas das quais 90% vão para o mercado externo como a China, o Luxemburgo, a França, a Suíça e Ontário no Canadá. A primeira safra de 2003, igualmente com 7000 garrafas, e 2004 com 4000 garrafas, fazem a história desde Syrah, dos primeiros que passaram pelo nosso “estreito”.

Vejamos o que nos diz o produtor sobre esta maravilha do Alentejo. Em relação ao aroma: “Boa concentração aromática com frutos pretos maduros e especiarias.” E no paladar: “Sabor intenso, macio e elegante, com taninos robustos e grande persistência final.” O produtor também nos diz que este syrah tem uma “Evolução positiva durante 7 a 10 anos, se conservado em local fresco, escuro e a garrafa deitada.” A verdade verdadinha é que já este ano degustámos o Syrah 2003, portanto a caminho dos 12 anos e a nossa classificação foi de 19 valores! Este Syrah está para durar!

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O monte Seis Reis está localizado em Estremoz, a cerca de 170 Km de Lisboa. Nos 200 hectares da herdade, actualmente encontram-se plantados 50 hectares de vinha sobre dois tipos de solos: argilo-calcários e xistosos, nos quais são produzidas as castas tintas Syrah, Aragonez, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Castelão, Trincadeira Preta, Touriga Nacional; e as castas brancas Arinto, Antão Vaz, Viognier e Alvarinho. Mais recentemente, foram introduzidas as castas Petit Verdot e Tannat. Toda a área de vinha, bem como a restante exploração agrícola, é desenvolvida de forma sustentável em produção integrada, respeitando os recursos naturais da região e a natureza envolvente.

O Monte Seis Reis iniciou a sua produção em 2003 e desde então tem alcançado vários reconhecimentos e prémios. É um espaço onde existe uma aposta notória tanto na qualidade dos vinhos como no enoturismo, visando criar uma ligação mais estreita entre o produtor e o consumidor. A adega está aberta todos os dias, para visitas guiadas e degustação dos vinhos. O nome da adega, bem como o nome dos vinhos, nasce da vontade de interligar o vinho à história de Estremoz, uma cidade que remonta ao século XIII e de onde se destacaram cinco Reis e uma Rainha.

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Em conversa com o enólogo, João Pedro Cardoso, ficamos a saber que o facto de não haver Syrah todos os anos, ao contrário de outros produtores, se deve a um único motivo: a preservação da qualidade. Se o Syrah dum determinado ano não tem a qualidade já presente nos anos anteriores, então esse Syrah vai para blend.
E já agora uma amigável pedido, que aqui os escribas agradeceriam: que a presença na Internet do Monte Seis Reis deixe de uma vez por todas de ser uma Página em Construção!

E assim chegamos ao momento presente. O próximo Syrah, provavelmente com o ano de 2011, sairá em Março ou em Setembro de 2015, e estão previstas 10000 garrafas. Dos 50 hectares de vinha só 4 são dedicados ao Syrah mas são 4 hectares preciosos! Sobre a próxima safra diz-nos o enólogo que “Está mais guloso” e nós começamos a salivar… e recordamos ao mesmo tempo uma anedota sobre a escolha do velho alentejano que adaptamos ao nosso tema e que diz assim:

Um velho alentejano começou a ter umas maleitas, que lhe afectavam o andar. Preocupado, foi ao Centro de Saúde e marcou uma consulta.
O clínico recebeu-o, auscultou, fez-lhe perguntas.
Olhou para ele fixamente, e inquiriu-o:
– Sr. Zé, se pudesse escolher, preferia ter Parkinson ou Alzheimer? 
-Parkinson, Sr. Doutor! Prefiro entornar metade do copo do que esquecer onde está a garrafa de Syrah!…

Fabuloso!

 

Classificação: 18/20                            Preço: 10,17€

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