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A Syrah é um lugar comum no mundo do vinho?

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Vem este nosso texto de hoje a propósito de uma crónica de João Afonso intitulada “Made in Portugal to Usa” e publicada na Revista de Vinhos nº 320 do passado mês de Julho do corrente ano, na página 70. A crónica fala de um convite feito e aceite pelo cronista para se deslocar aos Estados Unidos e dar várias palestras sobre vinhos portugueses relativos a uma determinada região.

A questão que nos levou a escrever este texto tem a ver, como não podia deixar de ser, com o tema Syrah!
O cronista a dado passo da sua apresentação fala das castas tintas mais representativas em Portugal e, para além das castas autóctones, fala naturalmente das castas internacionais que segundo ele, “fazia torcer o nariz à maioria dos assistentes”. E acrescenta: “Alguém perguntou mesmo por que perdemos tempo a fazer vinho de Syrah. A Syrah é um lugar-comum no mundo do vinho. E interessa a Portugal, um país tão pequeno e diferente, estar nesse lugar-comum?”

Será que a Syrah é um lugar comum no mundo dos vinhos?
Será que Portugal é um país assim tão pequeno?
Fazer vinho de monocasta Syrah será mesmo perder tempo?

A Syrah é um lugar comum no mundo dos vinhos!
O que é que isto significa?
É por ser uma casta presente em todos os continentes? Por exemplo na Austrália é a casta número um. E o que dizer dos Syrah australianos? Esses americanos que se manifestaram nas palestras não conhecem o Syrah australiano? E o João Afonso o que diz sobre isto?

Portugal é um país tão pequeno. Será que isto é verdade? Das cerca de quinhentas castas existentes no mundo trezentas e cinquenta existem em Portugal!
Isto diz muito sobre a variedade e da possibilidade de fazer vinhos. O João Afonso sabe tão quanto nós que dos trezentos e cinco concelhos existentes em Portugal só dois, repetimos, dois, é que não têm vinha. Para que conste são a Amadora e o Barreiro. Isto é ser um país pequeno? A seguir aos colossos vitivinícolas da Europa, América, Austrália, China e África do Sul, Portugal vem imediatamente a seguir no décimo primeiro lugar, mas sendo de todos os países incomparavelmente o mais pequeno. Uma coisa é o tamanho do país em termos geográficos outra coisa é a percentagem de vinha plantada e aí ninguém nos supera.

Fazer monocasta Syrah será mesmo perder tempo?
Afirmar isto só pode ser por ignorância ou má fé. Mas tendo em conta o conhecimento que o Blogue do Syrah tem em relação ao mercado vinícola português é mesmo ignorância. Daí a razão da nossa existência.

E depois há um outro aspecto que não sabemos se o João Afonso tem plena consciência dele. É que o Syrah português é muito bom! Esse é outro aspecto que justifica a existência do Blogue do Syrah. Dizer que o Syrah português não é exportável é uma declaração infeliz. Damos só um exemplo: O Dona Dorinda, de Évora, custa no mercado português dezasseis euros e noventa e cinco cêntimos. Entre outros mercados é vendido nos Estados Unidos em dois restaurantes topo de gama de Nova York por noventa dólares a garrafa! É perda de tempo exportar Syrah português?

Não é uma casta autóctone, diz-se.
Esse é um argumento de peso que está no coração de muitos produtores, enólogos e enófilos.
É um argumento de peso porque é verdade e além disso a Syrah existe em Portugal há uns escassos vinte anos (falta definir exactamente o ano concreto. O Blogue do Syrah está a realizar uma investigação há algum tempo de modo a conseguir responder exactamente a essa questão…mas adiante). Mas se esse argumento só por si fizesse a diferença, não consideraríamos o Alicante Bouschet  como uma casta portuguesa, do Alentejo, que não é, mas está tão entranhada no vinho alentejano há mais de um século que ninguém hoje em dia diz que se trata de uma casta francesa, de Bordeaux. Não estamos a dizer que o mesmo pode acontecer ao Syrah. Mas se voltarmos a este argumento daqui a cinquenta anos de Syrah em Portugal será que ainda fará sentido?

Podia ter sido assim que o João Afonso responderia aos americanos que se referiram ao Syrah português da maneira como o fizeram. Não tira o mérito que as  castas autóctones possuem, mas não valoriza, por ignorância, a capacidade vitivinícola que Portugal possui.

Um agradecimento ao João Afonso cujo texto possibilitou esta réplica!


 

Menos vinho na campanha de 2016 em relação a 2015

O Instituto da Vinha e do Vinho estima que a produção de vinho na campanha 2016/2017 atinja um volume de 5,6 milhões de hectolitros, o que se traduz numa diminuição de 20% relativamente à campanha 2015/2016.

O decréscimo global de produção, em relação à campanha anterior, é sustentado por todas as regiões vitivinícolas, à excepção da região do Algarve onde não se prevê variação.
É nas regiões de Lisboa, de Trás-os-Montes, do Douro e dos Açores, onde se antecipam as maiores quebras de produção, superiores a 25%, face à campanha anterior.

É claro que a campanha de 2015 foi extraordinária em quantidade assim como em qualidade. Também se sabe que estatisticamente, é muito difícil que um ano fantástico se repita imediatamente no ano seguinte.
Mas não é só em Portugal que a produção de vinho na campanha 2016/2017 decresce face à campanha do ano anterior. Segundo a Idealwine, ver aqui, em muitos outros pontos do mundo haverá uma baixa significativa na produção da bebida de Baco.

O Hemisfério sul e os países do Novo Mundo acusam igualmente uma baixa de recolhas. O Chile, por exemplo, sofrerá uma baixa de 25% em relação à produção de 2015 com um volume estimado entre as 8 e 9 milhões de hectolitros, devido nomeadamente por causa das chuvas torrenciais provocadas pelo El Nino. Igualmente na Argentina a produção diminuiu 30% em relação ao ano passado e de 35% em relação à média do decénio. Mas se nos concentrarmos no Malbec (a casta principal na Argentina) a diminuição será de 50% sendo a responsabilidade, de novo, atribuída ao El Nino. Na África do Sul, a baixa de produção é menor limitando-se a 7% com 10,7 milhões de hectolitros. Na Califórnia a colheita é superior a 2015, mas, apesar disso, inferior à média dos últimos anos.
Na Oceânia pelo contrário, as colheitas foram superiores ao ano precedente sobretudo na Nova Zelândia com mais 34%.

Na Europa, em geral, as previsões da colheita estão para baixo, embora isso não seja geral.
Em Espanha, por exemplo, existe a previsão de mais ou menos45 milhões de hectolitros. Um número que se deve principalmente a um aumento constante das taxas de rendibilidade ao longo dos últimos quinze anos, o que compensou em grande parte a redução na área da vinha (passando de 1,2 mil milhões de hectares para 958 777 hectares entre 2000 e 2015). Em França, de acordo com as primeiras estimativas do Ministério da Agricultura, a colheita do vinho em 2016 seria de 44 milhões de hectolitros , uma queda de 8% em relação a 2015 e 4% inferior à média do últimos cinco anos.E quem é o responsável? O clima de novo, com a geada de Primavera e granizo em Charentes, Borgonha e Beaujolais.

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Nós aqui no Blogue do Syrah, a única coisa que pedimos é que o Syrah, quer no mundo e sobretudo em Portugal, consiga escapar por entre “os pingos da chuva” como se costuma dizer, embora não temos dúvidas que o ano de 2016 vai ser tendencialmente pior em quantidade e também muito provavelmente em qualidade do que o ano de 2015, que se está a revelar excepcional a todos os níveis, embora nichos de qualidade possam sempre surgir onde menos se espera… cá estaremos para contar como foi e será!


 

La Chapelle HERMITAGE 1961

Trata-se de mergulhar no coração do universo de um dos maiores vinhos do mundo,
o La Chapelle Hermitage 1961!

Numa prova cega, que ficou lendária e que aconteceu nesse mesmo ano de 1961, entre os grandes Bordeaux ficou em primeiro lugar ex-aequo com o prestigiado Petrus. Isto também explica porque é que em 2007, num leilão promovido pela Christie`s, 12 garrafas deste Hermitage foram vendidas pela módica quantia de 180.000 euros.

Sem esquecer naturalmente a nota 100 atribuída por Robert Parker!

Trata-se do melhor vinho do mundo, ou seja, o melhor vinho do mundo é um Syrah?
Em todo o caso quem o bebeu, entre os especialistas, há concordância em o colocar entre os dez maiores crus do Século XX!
Nós aqui no Blogue do Syrah, como já dissemos antes, ainda não tivemos a oportunidade de o degustar! Haverá entre os nossos leitores uma alma caridosa com alguma garrafa esquecida do La Chapelle Hermitage 1961 e que não se importe de a partilhar connosco?

Enquanto esperamos por tal ensejo, aqui fica mais uma achega, esta reportagem fantástica do canal France 3, a não perder!


 

Qual é no mercado o vinho mais caro do mundo?

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Durante algum tempo o vinho mais caro do mundo foi o Domaine Romanée-Conti.
Mas o Blogue do Syrah está em condições de anunciar a todos os seus leitores e enófilos que segundo o site especializado em leilões de vinhos raros Idealwine, houve uma mudança importante no ranking dos vinhos mais caros do mundo “vendidos em leilões”.

Assim, o Hermitage La Chapelle 1961, da casa Jaboulet Ainé, ultrapassou o Domaine de La Romanée-Conti.

O leilão deste Hermitage foi muito disputado e atingiu o valor final de 13.320€, isso mesmo, Treze mil trezentos e vinte Euros, e foi arrematado por um enófilo austríaco.

O blogue do Syrah não está porém em condições de dar uma classificação a este Syrah Hermitage, porque ainda não teve a oportunidade de o degustar.
Se algum leitor fizer o obséquio de presentar estes vossos humildes escribas, ficaríamos obviamente agradecidos… eternamente!

Aqui vai a lista com os dez vinhos mais caros do mundo em leilão
Hermitage 1961

Eis a imagem de uma parte da propriedade da Casa Jaboulet Ainé, onde se produz o Hermitage La Chapelle.Hermitage 1961 1


 

A questão das origens da casta Syrah

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Voltamos à eterna questão da origem das coisas, tema sempre recorrente, pleno de conjecturas e, neste caso, falamos, claro, de Syrah, que é a casta que nos interessa, focados numa perspectiva científica, sempre a mais credível, eventualmente, embora por vezes não tão interessante como o lado fantasioso, sempre mais lúdico e com mais bouquet.

De acordo com as pesquisas recentes de José Vouillamoz, um botânico e geneticista suíço, e do arqueólogo biomolecular Patrick McGovern, iniciadas há quase uma década, foram encontradas videiras selvagens, a Vitis Vinifera, na Anatólia, sendo portanto ali o local provável do seu nascimento, juntamente com áreas próximas na Transcaucásia-Geórgia, Arménia e Azerbaijão. É nesta região que se acredita nasceu a agricultura, ainda na Idade da Pedra. O cultivo da terra proporcionou um abastecimento alimentar estável, e permitiu que os nossos antepassados se estabelecessem nos locais, dando origem a aglomerados urbanos e civilizações, passando de nómadas a sedentários.

Após a recolha de amostras de centenas de variedades de uva, Vouillamoz definiu sequências que são úteis para a comparação de genomas, criando perfis de ADN das castas de uva. A concentração mais densa de semelhanças entre variedades selvagens e cultivadas, a Vitis Vinifera, apareceu pois no sudeste da Anatólia. A evidência sugere que as videiras eram abundantes na região naquela época. As uvas selvagens não imediatamente consumidas poderiam ter sido armazenadas em cestas, onde as que ficavam no fundo seriam naturalmente esmagadas transformando-se em suco ou em algo mais interessante. “Embriaguez Serendipitous”, diz Vouillamoz. “O homem ou mulher que provasse este suco, observaria em si próprio um efeito eufórico, que o levaria a pensar: vamos fazer isto outra vez.” Portanto o homem começou a plantar vinhas em vez de continuar a colher uvas selvagens, como tinha feito durante séculos.

McGovern, autor de livros como Uncorking the Past, argumentou que a busca inicial terá sido “impedir que o vinho se transforme em vinagre.” Ao combinar os dois campos de pesquisa, Vouillamoz disse que as uvas foram domesticadas pela primeira vez entre 6.000 e 8.000 aC, possivelmente mais cedo. Vouillamoz estudou pois o ADN de 1.368 variedades.

E aqui chegamos ao ponto principal da ideia deste nosso texto de hoje. Há algumas conexões surpreendentes nas descobertas de Vouillamoz.
Aqui vai: a casta Syrah é bisneta da casta Pinot.  Diz ele que “todos pensariam que Pinot e Syrah teriam completamente diferentes origens. Eu digo que não! As duas pertencem à mesma árvore genealógica.”

Outra surpresa: a uva Gouais Blanc, utilizada para a produção de vinho a granel, tem uma prole com mais de 80 variedades, incluindo Gamay, Chardonnay, Riesling e Furmint. “Eu chamo-lhe o Casanova das uvas”, diz Vouillamoz. É assim que a partir do estudo da  genealogia da uva emergiram padrões que fazem repensar toda a teoria sobre as variedades actualmente conhecidas e como elas chegaram à Europa. “Havia a ideia de que a maioria das variedades antigas e importantes de uva na Europa Ocidental tinham sido introduzidas independentemente a partir de lugares no Médio Oriente, Oriente Médio ou no Egito, Turquia ou na Grécia, em momentos diferentes e em lugares diferentes. Agora acredito que estas variedades não são tão numerosos quanto pensámos. Um pequeno número de variedades de uva foram as uvas fundadoras das variedades que hoje cultivamos.”

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Estas castas originais cultivadas na Anatolia, descendentes das videiras silvestres da mesma região são os bisavós das castas actuais. Até agora foram isoladas 13 castas fundadoras. Em França incluem-se a Pinot Noir (Pinot Blanc e Gris são mutações) , Gouais Blanc, Savagnin, Cabernet Franc e Mondeuse Noire; na Itália, Garganega, Nebbiolo, Teroldego, Luglienga; na Grécia, Muscat Blanc à Petits Grains; em Espanha, Cayetana Blanca; na Suíça ou na Áustria, Reze; e na Croácia, Tribidrag.

Vouillamoz afirma que ainda há muito mais para descobrir em relação a linhagens de castas vinícolas. Originalmente temos a Savagnin e Pinot, as variedades mais antigas, que datam de um ou dois mil anos atrás, ambas responsáveis por uma série de cruzamentos que deram origem ao que cultivamos hoje, embora não se saiba se a Pinot é o pai o filho da Savagnin, e isso é incrível.

Os estudos continuam, alguns à espera de financiamento, girando à volta por exemplo de uma jarra de vinho encontrada no Irão, datada de 5400 AC, com Vouillamoz e McGovern procurando encontrar amostras de videiras dessa época!


 

Taça Syrah

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Pois não é que deambulando por este território quase infinito de informação, curiosidades e muito mais que é a Internet, encontrámos uma taça denominada especificamente para conter o nosso bem amado Syrah?!

Exactamente como se pode ver, e ser adquirida a partir de um lugar na rede com localização no Brasil dos nossos irmãos, logo para eles será muito mais fácil o processo de aquisição… e que depois nos venham aqui contar!

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Citando directamente a Ficha Técnica, podemos ler:

Cristallerie Strauss
Volume: 570ml
Altura: 230mm
Composição: 24% PbO

 O chumbo dá mais leveza, delicadeza e sonoridade, além de fazer com que a espessura da taça seja mais fina. As taças de cristal também são mais porosas. Esse factor também é positivo, pois, ao girarmos um vinho enquanto o degustamos, forçamos as moléculas contra a parede áspera, quebrando-as e, desse modo, obtendo grande concentração de aromas.

 O vinho tinto precisa de espaço para respirar, pois tem aromas e sabores muito intensos. Por isso, a taça tem corpo grande, fazendo com que se libere toda a sua potência. O formato também é ideal para que a bebida possa “dançar”. Por esse motivo, também é importante lembrar que ela deve apenas ser preenchida até um terço de sua capacidade.

 Possuem o bojo grande, mas têm a borda mais fechada para evitar a dispersão de aromas, concentrando-os. A aba fina direcciona o vinho para a ponta da língua, permitindo que a untuosidade e os sabores frutados dominem antes que os taninos sejam direccionados para a parte de trás da boca.

Aqui fica então a ideia de hoje, e quem sabe se neste nosso Portugal alguém se lembra de fazer semelhante, para podermos dizer como Ludwig Van, esse mesmo, o grande Beethoven:
“Depois de um árduo dia de trabalho, uma taça Syrah com Syrah é um conforto!”

Assim nos vamos, até ao nosso regresso!