
O que será mais difícil de compreender, o ciclo de evolução de um vinho desde que é engarrafado até ser degustado, ou o comportamento humano?
Vamos reflectir um pouco sobre esta questão.
Depois de engarrafados, os vinhos sofrem uma evolução com o passar do tempo. É um processo de redução, um certo rearranjo das centenas de substâncias que o compõem e que se formaram naturalmente durante o processo de fermentação.
Factores externos ao vinho influenciam na sua evolução, como as condições de armazenamento e, também, o tamanho da garrafa – numa meia garrafa a evolução é mais rápida do que numa garrafa normal. Contudo, a evolução depende fundamentalmente do próprio vinho: a variedade de uva, o vinhedo de onde provém, o terroir, a qualidade da colheita e as técnicas utilizadas na vinificação.
A tendência natural das coisas é que no momento da comercialização os vinhos já estejam prontos para serem consumidos. A maioria deles é feita para ser consumida até dois ou três anos depois de colocados à venda. Os brancos devem ser consumidos o mais cedo possível, para se desfrutarem as qualidades aromáticas, o sabor da fruta e a frescura. Para os tintos, o prazo é maior, pois os taninos e as anticianinas ajudam a conservá-los, à medida que as interacções ocorrem.
O ciclo de evolução de um vinho pode ser representado por uma curva. Começam a evoluir de forma ascendente até atingir o seu apogeu, quando as características de aroma, sabor e complexidade chegam à plenitude. Iniciam depois uma trajectória descendente, que reflecte a perda gradual de qualidades até à decrepitude.
Apenas uma parte mínima dos vinhos que actualmente são produzidos, como os grandes tintos do velho Mundo, tem condições de desenvolver as suas qualidades com o passar do tempo. Para comprar esses vinhos, geralmente muito caros é recomendado analisar o seu histórico através de safras anteriores, pois, geralmente, as uvas que entram no seu corte e a maneira de o vinifica é constante, definindo um estilo de vinho.
Na sua fase inicial, dentro do arranjo interno dos seus componentes, os polifenóis predominam, prevalecendo sobre moléculas menores, que são as responsáveis por aspectos mais interessantes do vinho. É comum ouvir que muitos grandes tintos são “fechados” quando jovens. Com o passar do tempo, os polifenóis polimerizam-se e precipitam-se na forma de sedimentos no fundo da garrafa. Começa a “abertura” do vinho, que caminha em direcção ao seu apogeu.
Na evolução de um vinho, os taninos têm grande participação, mas o teor alcoólico e a acidez são também muito importantes. Quando bem combinados, determinam a longevidade de um vinho. Isto é o que de um modo muito sintético é possível dizer sobre por exemplo, um grande Syrah!
Mas em relação ao comportamento humano? Esta evolução também existe após a constituição da personalidade, que por analogia colocamos a par do final do processo de engarrafamento dum vinho? Ou em relação à personalidade as coisa passam-se dum modo diferente?
Os vários especialistas que estudam o comportamento humano estão no geral de acordo com a seguinte tese: Depois da constituição da personalidade, que na maior parte dos casos acontece entre os 18 e os 21 anos de idade, não podemos mais mudar, ou seja, somos o que somos para o resto da vida. Podemos mudar muita coisa desde o aspecto, os amigos, de namorado/a, de trabalho, de hábitos, de prioridades, mas não mudamos de personalidade.
Com o tema lançado para reflexão, hoje haveremos de ficar por aqui, para continuar a reflectir sobre este assunto em próximo texto.