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Grandes ‘terroir’ para grandes vinhos… e grande Syrah!

Colecção Privada, Domingo Soares Franco, José Maria da Fonseca, 95% Syrah, 5% Touriga Francesa, Península de Setúbal, 2011

garrafa

Hoje estamos de novo na Península de Setúbal, para falarmos de um syrah de 2011, da José Maria da Fonseca, e de outro da mesma herdade, hoje esgotado, de 2004. Porquê o marcar desta distinção? Porque apesar de nascerem na mesma casa, são na verdade dois syrah diferentes.

Enquanto que o primeiro, além de syrah, tem 5% de Touriga Francesa, o segundo é 100% syrah.

Ambos fazem parte da chamada colecção privada do enólogo Domingos Soares Franco. Chama-se privada porque é unicamente o enólogo, a cada ano, e em total liberdade, que decide o que vai fazer… e como o vai fazer!

Estamos a falar do representante mais novo da sexta geração da família que, desde a fundação, preside aos destinos da José Maria da Fonseca. Domingos Soares Franco é, para além de vice-presidente, o enólogo desta casa, e por isso referência destacada no panorama vitivinícola da região de Setúbal, e do país. Embora assine todos os vinhos da José Maria da Fonseca, existem os que reserva para si como especiais. Chamou-lhes Domingos Soares Franco, como já ficou dito, Colecção Privada. Estes vinhos resultam da combinação de três factores: a sua formação, em Davis, na Califórnia; a influência do seu tio e por último a disponibilidade dos 650 hectares de vinhas da José Maria da Fonseca e a colecção, única em Portugal, de castas nelas plantadas.

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Foi em conversa telefónica que a Dra. Sofia Soares Franco, sobrinha de Domingos Soares Franco, muito simpaticamente se dispôs a responder às nossas questões sobre o syrah ou melhor, sobre os syrah em causa.

Assim ficamos a saber que o syrah de 2004 já vinha sendo feito desde 1999, com safras intermédias em 2000, 2002 e 2003, ou seja, 5 safras de syrah seguidas a 100%. Depois segue-se um hiato de vários anos onde a colecção privada parece “esquecer” o syrah até que em 2011 Domingos Soares Franco volta ao syrah com a pequena, mas importante para nós, particularidade de acrescentar 5% de Touriga Francesa, que como se sabe é o outro nome dado à Touriga Franca que é somente uma das castas mais plantadas no Douro e que faz parte do grupo das chamadas “cinco grandes” castas recomendadas para os vinhos do Porto. Nós que somos apologistas de que um syrah que se preze, um syrah a “sério” deve ser a 100%, devo no entanto reconhecer que a “solução” apresentada pelo nosso enólogo não desmerece, de modo algum, o produto final. E ainda bem porque assim o nome José Maria da Fonseca engrandece-se ainda mais e o consumidor de syrah fica ainda mais satisfeito!

Fizeram-se 4300 litros que deu a módica quantia, pelas nossas contas, de 5375 garrafas de syrah. Em relação às notas de prova o produtor diz-nos que a cor é de um vermelho carregado. O aroma é a cassis, violetas, amoras e especiarias. O paladar é jovem, mas com taninos a suavizar, frutado e com boa acidez. Final de prova é “médio”. Pessoalmente discordamos deste último tópico. Não nos parece que o final possa ser chamado de “médio”.  Diríamos “longo”. Sendo um syrah intenso o final tem que ser longo como todos os syrah de qualidade superior. Provem-no e digam-nos o que pensam sobre isto!

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Se é verdade que a José Maria da Fonseca tem na Península de Setúbal a sua maior área de vinha, a verdade é que também possui ramificações vinícolas no Alentejo e no Douro!

Vejamos resumidamente cada uma das vinhas.

A Vinha Grande de Algeruz é considerada um marco na história da empresa. Com esta vinha, a José Maria da Fonseca assume uma opção estratégica que passa pela necessidade de ser da sua responsabilidade a produção da matéria-prima, por forma a garantir a diversidade e qualidade da mesma. Em 1989 é adquirida a propriedade e no ano seguinte tem início um processo de reestruturação faseado em cinco etapas, o qual culminou em 1998 com o início da produção.
O potencial desta vinha é elevadíssimo. Até ao momento, as uvas aqui produzidas têm sido destinadas para vinhos como Periquita, BSE, Albis e para o Alambre Moscatel de Setúbal. É também nesta vinha que se iniciou parte da marca Colecção Privada Domingos Soares Franco e um importante campo clonal de várias variedades.

Na mesma linha estratégica que levou à aquisição em 1989 da Herdade da Vinha Grande de Algeruz – a necessidade de garantir uma produção própria capaz de manter um alto padrão de qualidade nos vinhos – surgiu em 1997 a Quinta das Faias.
Situada nas Faias, localidade próxima do Montijo, para além da área de vinha também tem uma parte de floresta.
A Quinta das Faias apresentava vinha, embora muito heterogénea e longe do padrão que a empresa mantém na generalidade das vinhas. Desde 1997 vem sendo corrigida e hoje a vinha das Faias encontra-se já completamente reestruturada.

A Quinta de Camarate tem como particularidade o facto de nela viver a Família Soares Franco. Cerca de 39 hectares, dos 120 totais, são atualmente ocupados por vinha. A restante área distribui-se entre matas, pastagens, jardins e terrenos baldios. As pastagens têm uma importância acrescida, a par das vinhas, em virtude de aqui se produzir o afamado queijo de Azeitão. Os solos variam, de argilo-calcários a arenosos. A Quinta de Camarate acolhe uma colecção ampelográfica iniciada na década de 20 do século passado e que actualmente ronda as 560 castas. Esta colecção tem-se mostrado preciosa para a empresa pelas múltiplas opções enológicas que proporciona.
A principal vocação é o Quinta de Camarate (branco seco, branco doce e tinto), contribuindo também para alguns componentes dos vinhos da Coleção Privada Domingos Soares Franco.

Estar na Quinta dos Pasmados é estar em plena Serra da Arrábida, num cenário de rara beleza onde a vegetação luxuriante só é quebrada pela vinha de aproximadamente 18 hectares. As uvas produzidas nesta vinha destinam-se exclusivamente à produção dos vinhos Pasmados.

Localizada entre Azeitão e Setúbal, no sopé da Serra da Arrábida, a Quinta dos Cistus deve toda a sua beleza à forma como a vinha se estende, paralelamente à estrada nacional, e à imponência da serra, pelo maciço que a constitui e pela vegetação. Os solos são argilo-calcários. As uvas da Quinta dos Cistus, depois de vinificadas, dão forma a alguns vinhos brancos da José Maria da Fonseca. Pertença de Isabel Menezes, acionista da José Maria da Fonseca, esta pequena quinta, localizada em Azeitão, compreende desde 1991 uma vinha de 2,2 hectares de Moscatel Roxo. Apesar de pequena, foi o renascimento desta casta após a sua quase extinção.

Após a aquisição, em 1986, da Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes, da qual faz parte a Herdade do Monte da Ribeira, a José Maria da Fonseca concretiza o sonho antigo de poder produzir vinho no Alentejo, numa propriedade carregada de prestígio e história (pelo menos desde 1878 que aqui se produz vinho), utilizando técnicas tradicionais de vinificação.
As uvas, provenientes da Herdade do Monte da Ribeira, localizado em pleno coração Alentejano, em Reguengos de Monsaraz, recebem do sol a luminosidade e o calor intenso que imprimem um carácter único aos vinhos da região.
Nos atuais 72 hectares plantados com vinha em 1952, 1984, 1986, 1995, 1998, 2000 e 2002, as castas tintas dominam o encepamento tradicional da região (Trincadeira, Aragonez e Grand-Noir). No Inverno, a parcela plantada em 1952 torna-se ainda mais bela, em virtude da ausência de folhagem permitir visualizar os esteios de granito e a imponência das cepas muito antigas.
A reconversão da vinha, terminada em 2002, incluiu a completa separação por castas, às quais se acrescentou a mais-valia técnica de, em 20 hectares reconvertidos, terem sido os últimos talhões de clones dentro do talhão de uma mesma casta. Esta seleção clonal, uma raridade na viticultura alentejana foi feita em duas das três castas plantadas na vinha (Trincadeira e Aragonez).
Estas vinhas dão origem aos vinhos alentejanos da José Maria da Fonseca: José de Sousa, José de Sousa Mayor e J de José de Sousa.

Com o objectivo de ultrapassar a imagem de uma empresa produtora de âmbito regional (Península de Setúbal e Alentejo), à José Maria da Fonseca não se apresentavam muitas soluções alternativas: o vale do Douro era, de facto, a única das regiões vitivinícolas portuguesas capaz de gerar valor acrescentado em conformidade com os projetos de crescimento da companhia.
Os objectivos passam por optimizar a excelência das castas e dos vinhos do Douro, e associá-los à imagem e credibilidade da José Maria da Fonseca. A concretização destes objectivos passa pela produção de dois vinhos tintos daquela região, Domini e Domini Plus.
As prioridades imediatas da José Maria da Fonseca centram-se na terra, através da aquisição da Quinta de Mós, num total de 15 hectares de vinhas com cerca de 30 anos, plantadas com Touriga Nacional, Touriga Francesa e Tinta Roriz.

O Centro de Vinificação Fernando Soares Franco é considerado um dos 50 melhores do mundo. A sua construção teve início em 1999, e foi oficialmente inaugurado no dia 14 de Setembro de 2001, com a presença do então Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio.

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Numa área coberta de 9000 m2, com capacidade para 6.5 milhões de litros distribuídos por 513 cubas de diversas capacidades e uma operação quase totalmente computorizada, coexiste a mais avançada tecnologia com métodos tradicionais, casos dos lagares e prensas verticais, estas do início do século XX.
É neste local que todo o esforço desenvolvido nas vinhas se materializa, dando origem aos vinhos da José Maria da Fonseca.

Apesar desta dimensão a empresa é um negócio de família com quase dois séculos de história que nunca se deixa a si própria repousar sobre as glórias conquistadas. A José Maria da Fonseca exerce a actividade vinícola desde 1834, fruto da paixão partilhada de uma família que tem sabido preservar e projectar a memória e o prestígio do seu fundador. Consciente da responsabilidade de ser, na actualidade, o mais antigo produtor de vinho de mesa e de Moscatel de Setúbal em Portugal, a José Maria da Fonseca obedece a uma filosofia de permanente desenvolvimento, o que a leva a investir sempre mais em suportes de investigação e de produção, aliando as mais modernas técnicas ao saber tradicional. Exemplo disso mesmo é a Adega José de Sousa Rosado Fernandes, em Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, onde a tradição romana de fermentar em potes de barro se mantém a par da última tecnologia.

Segundo os dados de 2013, é uma empresa 100% familiar gerida pela 6ª geração, contando já com 3 membros da 7ª geração no activo. Exporta 80% da produção. Os seus vinhos estão presentes em mais de 70 países. Mais de 30 marcas, distribuídas por vinhos de mesa, generosos e licorosos, e por cinco regiões: Península de Setúbal, Alentejo, Douro, Dão e Vinhos Verdes. Periquita é a maior marca, seguida do Lancers, Alambre Moscatel de Setúbal e BSE. Área de vinha: 650 hectares. O número de trabalhadores é de 131 em todo o grupo.

Ao beber o syrah da José Maria da Fonseca recordamos o grande sábio Galileu, aquele que ousou desafiar a lei divina do seu tempo, que dizia:
“O syrah é composto de humor líquido e luz”.
É o que se sente quando se bebe este néctar feito de cor, aroma e luz…

Partam em sua demanda!

Syrah de 2011
Classificação: 17/20                                             Preço: 14,50€

Syrah de 2004
Classificação: 16/20                                             Preço: 18,50€

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Syrah de Setúbal (18)

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Hoje apresentamos a lista dos syrah da Península de Setúbal, treze no total.
Como é possível verificar, dois estão esgotados, e outro só está disponível para o mercado externo, embora já tivéssemos tido oportunidade de o degustar.
As três grandes casas de vinhos de Setúbal produzem syrah de grande envergadura. Estou a referir-me à casa Ermelinda Freitas, à Bacalhoa e, naturalmente, à José Maria da Fonseca. O Só syrah da Bacalhoa deixou de ser produzido, com muita pena nossa, e desse último ano, 2008, haverá neste momento já poucas caixas ainda disponíveis…
Nesta lista, como temos vindo a fazer, apontamos todos os syrah, mesmo os já esgotados.
Onde estiver mencionado mais do que um ano significa que os conhecemos, o que não quer dizer que não haja outros anos.

Adega de Pegões, 2011
Ameias, 2009, 2010, 2013
Cascalheira, 2012
Domingos Soares Franco, 2004 (esgotado)
Domingos Soares Franco com TF, 2011
EMME, 2007, Grande Escolha (esgotado)
Ermelinda de Freitas, 2005, 2011, 2012
Fernão Pó, 2013
JP, Bacalhoa, Rosé Syrah, 2015
Lobo Novo, 2013 (mercado externo)
Quinta de Alcube, 2012
Quinta do Monte Alegre, 2011
São Filipe, 2011
Serras de Azeitão Rosé, Bacalhoa, 2015
Só Syrah Bacalhoa Setúbal, 1999, 2003, 2007, 2008
Talego, 2013
Vale dos Barris, 2011
Vinhas de Pegões, 2015


 

Ermelinda Freitas, 100% Syrah, Casa Ermelinda Freitas, Península de Setúbal, 2012

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Na viagem que empreendemos pelo Portugal dos syrah, chegamos desta vez à península de Setúbal, e mais precisamente à casa Ermelinda Freitas, que desde 2004 nos presenteia regularmente com um syrah.

Não é preciso falar muito da casa Ermelinda Freitas, sobejamente conhecida no mundo dos vinhos, empresa familiar localizada em Fernando Pó, no concelho de Palmela. Nasceu em 1920 pelas mãos de Deonilde Freitas e neste momento, com Leonor Freitas, vai já na sua quarta geração. Esta assumiu o comando da sua mãe, que deu o nome aos vinhos da casa. Foi com a actual proprietária que surgiu o grande impulso dado à empresa pois foi ela que ampliou as vinhas que herdou, de sessenta hectares para os actuais trezentos e quinze hectares. A quinta inicialmente só tinha duas castas, Castelão (conhecida na península de Setúbal por piriquita – que acabou por dar o nome a um vinho da empresa concorrente, a José Maria da Fonseca) e a Fernão Pires, branca, também muito usada na região. Foi Leonor Freitas que introduziu todas as castas que a Casa Ermelinda tem actualmente e naturalmente o syrah.

E é por isso que se justifica este post! Falamos da safra de 2012. Que foi a primeira e que aconteceu quase como experiência em 2004.

Mas foi com o syrah de 2005 que, claro está, tudo mudou. Numa prova cega, em 2008, ganhou o primeiro prémio num concurso internacional – o Vinalies Internationales – onde estiveram presentes mais de três mil vinhos de trinta e seis países. Foi indiscutivelmente um marco superior, porque nunca um vinho da península de Setúbal tinha ganho um primeiro prémio num concurso internacional. Foi assim um syrah que deu a projecção nacional e internacional que a Casa Ermelinda Freitas nunca tinha tido. Mas daí à imprensa noticiar que se tratava do melhor vinho tinto do mundo vai uma imensa distância, nem era esse o propósito do concurso. Mas por falta de informação ou, podemos mesmo dizer, por ignorância, quando a notícia do prémio chegou a Portugal todos começaram a dizer o que não era rigoroso dizer, porque se tratava dum prémio num concurso internacional entre outros concursos internacionais. A Ermelinda aproveitou a deixa e a publicidade gratuita, apesar de falsa. A especulação começou e  continua até aos dias de hoje.
A safra de 2005 tinha tido tiragem de onze mil garrafas, uma boa produção para o meio vinícola português, mas largamente  insuficiente para um vinho que esteve nas bocas do mundo.
A esse syrah damos a nota dezoito em vinte. Os anos seguintes merecem-nos a nota de dezasseis.

De referir que nas três gerações anteriores os vinhos não eram engarrafados e não tinham marca própria. Eram vendidos a granel e com uma qualidade que muitas vezes deixava a desejar.

Sob a liderança da quarta geração tudo mudou! Percebe-se que Leonor Freitas não estava satisfeita com a herança recebida e munida de uma equipa onde se destaca o enólogo Jaime Quendera, mudou todo o “savoir faire” da Casa.

O nosso syrah, com 14% de teor alcoólico, teve fermentação em cubas de inox de temperatura controlada. Estágio de doze meses em meias pipas de carvalho americano e francês. Isto deu origem a um vinho de cor granada, concentrado. Aroma confitado de fruta preta madura, com alguma especiaria. Na boca é cheio, um tanto ou quanto aveludado com taninos presentes, como não podia deixar de ser – característica da casta. O final é longo e persistente.

Já Plínio dizia, no princípio da nossa era, e com razão, que “o vinho é o sangue da terra”.

O prémio internacional referido serve para explicar porque é que uma casa vinícola, também de Setúbal, concorrente da Ermelinda, desiste do syrah que vinha a produzir desde 1999. Trata-se do “Só” syrah, da Bacalhoa, que teve o seu fim com a safra de 2008. Situação que lamentamos visto que era um syrah de grande qualidade, apesar de ter preço mais elevado em relação ao syrah da Ermelinda Freitas, que  acabou por ganhar o confronto entre os dois syrah mais emblemáticos da península de Setúbal!

Classificação: 16/20                            Preço: 8,99€

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