Monthly Archives: September 2017

Gamito, Herdade do Gamito, 100% Syrah, Alentejo, 2014

É e não é um Syrah novo!
É novo porque só tivemos conhecimento dele há poucos dias!
Não é novo porque foi lançado há cerca de um ano!
Mas alguém ouviu falar dele?

Este Gamito, com 3.333 garrafas lançadas no mercado, e não tendo no horizonte a garantia de continuidade, tem como enólogo residente Marcos Vieira e teve inicialmente Rui Reguinga como enólogo consultor. Actualmente o enólogo consultor é o bem conhecido António Ventura. As notas de prova dizem-nos que tem “cor Ruby, aroma intenso de fruta preta, com notas de café e chocolate. Paladar harmonioso, encorpado, taninos suaves e um final longo e elegante.” Tem uma graduação alcoólica de 13,5% embora no palato pareça ter os habituais 14% ou 14,5% dos Syrah alentejanos, tendo estagiado 12 meses em barrica.

A Herdade do Gamito é o único produtor de vinho engarrafado regional do Concelho do Crato, Alto Alentejo. Ao todo são 27 hectares de vinha assentes em solo essencialmente granítico com floramentos arenosos, num clima seco, mas com frescura matinal. Está localizada no Nordeste Alentejano, Concelho do Crato, vila histórica que foi sede da ordem de Malta em Portugal, integrada no sistema defensivo das grandes fortalezas de fronteira. Já no tempo dos Romanos havia referência à cultura da vinha na região do Crato, o que é confirmado por vestígios encontrados, tais como talhas de barro.

A vinha foi instalada em 2 fases, a primeira em 2001 (10 hectares) e a segunda em 2003 (14 hectares), perfazendo assim na sua totalidade 24 hectares. As castas foram instaladas de acordo com as características do solo: Aragonez, Trincadeira, Alicante Bouschet, Syrah, naturalmente, Merlot e Cabernet Sauvignon, apresentando um encepamento de 3.367 plantas/hectare. O sistema de condução em todas as castas é o coração bilateral, sendo a poda realizada de modo a respeitar os hábitos de frutificação de cada videira, visando a obtenção de produções de 5.000/6.000 Kgs/hectares. Toda a área de vinha é servida por um sistema de rega gota a gota, sendo a gestão da água realizada de acordo com os parâmetros que são predefinidos em cada ano. Os solos são de predominância granítica, bem drenados, com declives suaves, estando as diferentes castas orientadas de modo a maximizar o seu potencial de acordo com a topografia. O clima apresenta condições acentuadamente mediterrâneas, mas com um microclima de influência continental, marcado por precipitações anuais na ordem dos 900 mm e marcadas amplitudes térmicas.

A adega da Herdade do Gamito foi construída com base numa configuração destinada a permitir explorar o melhor potencial qualitativo das uvas das propriedade. Para isso, procurou-se uma localização junto à vinha, mas que permitisse a menor intervenção mecânica possível, utilizando o desnível de 6 metros para processar a uva por gravidade.
Um destaque muito especial para a cave de barricas, totalmente subterrânea e protegida por rochas graníticas, que permite as melhores condições de estágio do vinho tanto em temperatura como em humidade.

O poeta persa dos séculos XI e XII Omar Khayyan no seu poema Rubaiyat diz o seguinte:
“Vinho! Eis o remédio que carece o meu coração doente.
Vinho com perfume almiscarado! Vinho cor-de-rosa!
Dá-me vinho para apagar o incêndio da minha tristeza.”
O Syrah Gamito 2014 sorve-se com prazer imenso, tristes ou felizes, sempre com muita alegria no coração!

 

Classificação: 17/20                                                                           Preço: 6,95€


 

A importância do ‘Terroir’

Falar de Terroir, palavra francesa, é falar de um conceito que não tem equivalente noutros idiomas, por isso é utilizado sem ser traduzido, isto é, designa universalmente uma ideia bastante concreta: a relação íntima entre solo e um micro-clima particular, dando origem a um tipo de uva com uma qualidade e identidade próprias.

No mundo do vinho é consensual, em primeiro lugar, que um bom produto final começou na videira, logo a ideia de terroir ganha imediatamente corpo, e a seguir que uma uva equilibrada e completa, fruto desse terreno, evita mais tarde manipulações artificiais e correctivas que lhe diminuem o valor.

Falamos portanto da relação homem/natureza, logo o terroir pode aqui ser entendido como a combinação entre solo + geografia + clima + intervenção humana. Expressão com origem na região da Borgonha onde eram definidos os vinhos que não estavam dentro das minúsculas regiões demarcadas, mas eram igualmente de qualidade. Portanto, eram vinhos da terra, do terroir. Vê-se que a expressão nasceu como defesa dos produtores que, estando fora das áreas demarcadas, mesmo assim faziam vinhos de qualidade.

Há então cinco elementos-chave para entender do que estamos a falar, de forma sistematizada.

SOLO
O solo, além de dar suporte às raízes da videira, proporciona ao fruto água e elementos nutritivos. Solos ricos trazem vigor e elevam a produção de cachos mas não haverá concentração de fruta logo o vinho será menos complexo. Um solo pobre, contra o que se poderia pensar, ao limitar o rendimento da videira, determina a produção de uvas mais ricas, dando vinhos mais estruturados.

CLIMA
O clima determina a qualidade da uva. Os melhores são os climas temperados e com grande amplitude térmica, já que elevadas temperaturas diurnas favorecem o amadurecimento da fruta, enquanto que o frio nocturno faz a planta descansar, beneficiando a uva e dando uma vida mais longa à videira.

ALTITUDE
Está directamente relacionada com o clima, sobretudo a temperatura média, pois o aumento de altitude conduz a temperaturas mais frias. Mais frio significa maturação mais tardia da fruta, concentrando assim aromas e cor. Por esta razão os produtores geralmente destacam no rótulo a altura dos vinhedos.

HUMIDADE
Está relacionada com a quantidade de chuva ao longo do ano. A vinha reage de maneiras diversas perante a quantidade de chuva ao longo do ano. Mas o pior são as chuvas intensas próximas da época da colheita, que prejudicam o teor de açucares, chegando a aumentar a possibilidade de fungos devido a humidade excessiva.

RELEVO
Terrenos de declive, mais ou menos acentuados, modificam a exposição solar, influenciando a maturação das uvas. A topografia influencia por exemplo a protecção contra geadas ou a drenagem dos terrenos, factores com acção directa no matéria prima que entra na adega. Exemplo maior da influência do relevo é a nossa região do Douro, onde as vinhas em socalcos ou patamares de grande inclinação, dão lugar a vinhos de enorme carácter e individualidade. Ou o Alentejo, lugar de eleição onde frutifica algum do melhor Syrah do mundo!

Por fim temos a intervenção humana, catalisando e extraindo do terroir o melhor que lá existe. É entendendo bem o terroir com que se trabalha que se consegue essa magia que tanto apreciamos: saber identificar quais as uvas que melhor se adaptam ao terroir, como plantar a vinha, mais acima, mais abaixo, afastada do solo ou não, etc. A técnica e a enologia vão de mãos dadas com o terroir.

Por isso da próxima vez que um Syrah encher de sublime prazer o nossos sentidos, de certeza um grande trabalho de Terroir esteve por detrás da sua confecção.