Monthly Archives: January 2017

Grand´Arte, 100% Shiraz, DFJ Vinhos, Lisboa, 2012

O Syrah Grand´Arte, que por acaso se escreve Shiraz, já iremos falar disso, da DFJ Vinhos, liderada por José Neiva Correia, vai na segunda colheita, e é dela que vamos falar hoje! A primeira tinha sido de 2011. Em termos de qualidade podemos afirmar que estão muito equiparadas.

Sobre o dito Shiraz na designação, é o único Syrah português que se apresenta com a outra grafia mais usada nos Syrah do novo mundo!

Mas vamos falar deste Shiraz “Grand D’Arte”, da Quinta Fonte Bela em Vila Chã de Ourique, no concelho de Santarém, ou seja, um regional de Lisboa, que possui uma graduação alcoólica de 13,5% e teve um estágio de três meses em barricas de carvalho francês.
Diz-nos o produtor que se trata de um Shiraz “…equilibrado, com taninos macios e um toque de baunilha e especiarias. Muito suave, fácil de beber e ao mesmo tempo, intenso, persistente e saboroso.” As várias garrafas que bebemos, ao longo deste último ano, vêm confirmar estas palavras!

Já Ernest Hemingway dizia que:
“Uma pessoa com o aumento do conhecimento e da educação sensorial pode obter prazer infinito no vinho.”

Em conversa com o Director Comercial e de Marketing da DFJ Vinhos, Luís Gouveia, homem simpático e muito disponível para prestar todos os esclarecimentos, ficámos a saber que com esta colheita foi feito um número maior de garrafas da colheita de 2011 que tinha sido vinte e quatro mil garrafas, embora a grande maioria tenha sido destinada ao mercado externo. E uma palavra de apreço quanto à informação prestada no site oficial da empresa, que está devidamente actualizado, permitindo assim a quem escreve e divulga prestar um bom serviço. Um exemplo a seguir.

Segundo a crítica de vinhos inglesa Jancis Robinson “a melhor maneira de introduzir amigos no mundo do vinho é abrir garrafas melhores do que eles estão acostumados, mas só falar de suas virtudes caso lhe seja perguntado.”
Então sem dizermos mais nada vamos lá beber uma taça de Shiraz do Grand`Arte e cá estaremos para falar se nos for perguntado!

 

Classificação: 16/20                            Preço: 7,95€


 

Humanitas, Vinha das Virtudes, 100% Syrah, Alentejo, 2014

Trata-se da segunda edição deste Syrah topo de gama de Évora, e que nos encantou da mesma maneira que o seu irmão de 2013.

Mas há uma diferença que queremos realçar. Este Humanitas de 2014 tem uma maior capacidade de evolução! Isto, claro, não é científico, mas daqui a um ou dois anos vamos voltar a falar deste Syrah e depois vamos ver do nosso vaticínio! De qualquer maneira estamos perante um Syrah que quando o bebemos aquele “ahhh” especial, típico de um Syrah acima da média, aquele toque final que se prolonga, significando qualquer coisa como: mas que Syraaaahhhh!!!
Em Dia de Reis, que melhor presente pode haver?

O nome, na sua etimologia latina, é uma das sete virtudes do poema épico Psychomachia, que significa batalha da alma, e foi escrito por Prudêncio – Poeta Romano que viveu de 348 a 410 e fala sobre a batalha das boas virtudes contra os vícios malignos.

O enólogo é o egrégio Pedro Baptista, que está também ligado à Fundação Engenheiro Eugénio de Almeida e é responsável pelo Syrah Scala Coeli já por nós destacado aqui. A designer é Rita Rivotti, que trata da imagem dos vinhos que agora chegam ao mercado.
Ao contrário do Humanitas 2013, de que só foram feitas 2100 garrafas, deste de 2014 foram feitas mais do dobro. O grau alcoólico é de 14% e apresenta-se com rótulos novos para mais facilmente se distinguir do outro vinho tinto da casa. As notas de prova que escolhemos dizem que tem “cor densa e concentrada, aromas maduros de frutos vermelhos e pretos à mistura com a frescura de bosque e sensações mentoladas. Tanino assertivo e boa acidez que escondem por completo o álcool elevado.”

A vinha está implantada em solos de origem granítica, beneficiando também da exposição a norte, que proporciona maiores amplitudes térmicas e noites mais frias que a generalidade do Alentejo. As produções serão sempre baixas e orientadas unicamente para a qualidade até porque a vinha só tem 2,5 hectares.

O proprietário, o muito simpático José Rodrigues, um empresário de Setúbal, amante de Syrah tal como nós, tinha o desejo de plantar uma vinha onde pudesse fazer vinhos de qualidade. Podia ter escolhido Setúbal, o que seria natural, mas inteligentemente optou pelo melhor sítio onde, com alguma garantia de sucesso, poderia fazer um Syrah, assim como outros vinhos, naturalmente, com qualidade elevada. Escolheu o Alto Alentejo, mais precisamente o distrito de Évora. Foi em 2011 que descobriu o refúgio ideal. Uma propriedade no Alentejo, a cerca de 10 kms de Évora, situada numa zona de paisagem protegida pela Rede Natura 2000, que o encantou de imediato. A casa do Monte da Ribeira era a única edificação a pontuar a propriedade. Começou por adquirir um tractor e algumas alfaias para apoio do assento agrícola e o seu espírito inquieto não sossegou enquanto não concretizou o desejo de plantar uma vinha. Não é fácil fazer uma vinha e produzir vinhos e ter um lugar no mercado, mas apesar de José Rodrigues ter sido avisado, não quis desistir e foi à luta.

Plantou então, entre Abril e Maio de 2012, 2,5 hectares de vinha com castas que sempre apreciou: Aragonês, Touriga Nacional, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon e naturalmente a nossa Syrah. Depois, chamou o arquitecto Jorge Fragoso Pires para lhe desenhar uma adega funcional e contextualizada.
A adega está situada em território abrangido pela Rede Natura 2000, que visa proteger as espécies e os habitats mais ameaçados da Europa. Foi concebida segundo exigentes critérios de racionalidade técnica e funcional e está preparada para resistir às inevitáveis evoluções do processo produtivo. A uva é seleccionada manualmente no amplo alpendre exterior, para ser admitida na nave industrial, e a transferência das massas é feita por gravidade, de um modo natural.

A cave de envelhecimento é semi-enterrada, para assegurar a correcta evolução dos vinhos em ambiente termo-higrométrico adequado. O “layout” complementa-se com o laboratório, outras instalações técnicas e uma cuidada zona social onde se realizam as provas de vinho, e outras reuniões, com ampla vista sobre a quinta. De tal cuidado e rigor só poderia sair algo de qualidade superior, como fica comprovado!

A nossa citação de fecho é do político francês Talleyrand que diz:
“Antes de levar tal néctar aos seus lábios, você olha segurando alto a sua taça, cheira longamente, e então, a taça colocada na mesa … falamos!”
O Humanitas Syrah 2014 é pois de longas falas, que se vão prolongar em profundidade ainda por muito tempo, sendo levado aos lábios e palato com sumo deleite!

 

Classificação: 18/20                                                     Preço: 16,00€


 

Monte da Colónia, 100% Syrah, Alentejo, 2015

Apresentámos aqui este Syrah  de Fronteira, distrito de Portalegre, na sua edição de 2012!

Hoje vamos falar da colheita de 2015!
É um Syrah de qualidade, com 14,5% de graduação alcoólica, e que será certamente candidato ao prémio de melhor Syrah de 2015 na relação qualidade/preço, visto que custa em Lisboa menos de seis euros.

A empresa foi fundada em 1980 pela geração anterior, na altura uns jovens com fortes expectativas de futuro, muita ambição e espírito de equipa que decidiram arriscar, erguendo uma empresa que ainda hoje está no mercado, essencialmente de cariz familiar, onde as grandes decisões são tomadas por dois irmãos.

O objectivo fundamental da empresa é o da produção e transformação de produtos cultivados no próprio local, azeite, azeitonas de conserva e vinhos, bem como a criação de gado bovino e ovino.
Actualmente com um lagar de azeite de extracção a frio altamente modernizado, que veio substituir o tradicional lagar de prensas, onde não só se labora a azeitona própria, oriunda dos olivais do Monte, como também de alguns olivicultores da região.
Com uma área de 600 hectares, e diversificadas características, são assim exploradas diversas espécies vegetais e animais, destacando-se a espécie bovina e ovina, das espécies vegetais podemos destacar os 100 hectares de olival composto por diversas qualidades de azeitona.

Planícies a perder de vista, um céu que adormece glorioso, casas brancas debruadas a azul, com janelas para a tranquilidade, e os melhores sabores! Falamos, claro está, do Alentejo, seduzidos pelo Monte da Colónia. A herdade, situada em Vale de Seda, concelho de Fronteira, produz vinho, azeite e azeitonas com a chancela da região. E, para bem da nossa boca, a tradição por aqui permanece!

Relativamente à Vitivinicultura, praticada apenas nos últimos 14 anos, mas por sinal muito bem concebida, uma vez que lentamente tem conseguido adquirir todo o equipamento necessário para que se possa fazer todo o processo desde a vindima, fermentação, engarrafamento, rotulagem, sistema de frio, enfim, o Monte da Colónia tem todo o equipamento necessário de modo a facilitar não só o processo, como o trabalho. Em média a empresa produz 100 mil litros de vinhos tintos divididos em várias referências (tinto normal, colheita seleccionada, monocasta Syrah, alicante bouschet e reserva e bag in box), 10 mil litros de branco uma monocasta arinto, 6 mil litros de vinho rosé Syrah, ocupando assim uma área de 20 hectares de vinha com as castas, aragonez, cabernet sauvignon, arinto, alicante bouschet , castelão, Syrah, trincadeira, verdelho, etc., tudo conjugado sob batuta e o saber do enólogo Rui Vieira.

Eurípides escreveu:
“O vinho foi dado ao homem para acalmar as suas fadigas.”
Temos aqui um bom exemplo disso mesmo, com o Syrah Monte da Colónia, e toda a sua envolvente!

 

Classificação: 17/20                                           Preço: 5,85€


 

Brindar ao Ano Novo, toda a história!

Ou toda a história sobre este acto de brindar à saúde do que quer que seja fazendo bater os copos com bebida uns nos outros entre os convivas.

Tudo começa nos tempos idos de Luis XIV, em França, com o “Affaire des Poisons”, portanto o “Caso dos Venenos”. Houve um crime primeiro, depois outros, pessoas importantes da época estiveram envolvidas e segui-se uma grande investigação policial.

E então foi assim: Henriqueta Stuart de Inglaterra, amante de Luis XIV, morre pouco depois de ter bebido um copo de água com chicória! Logo aparece a suspeita de envenenamento, alguém que estive contra a aliança entre França e Inglaterra. A polícia, com Gabriel de la Reynie liderando a equipa, começa pois a investigar. Mas sem sucesso. Um ano depois mais duas mortes misteriosas ocorrem, o Ministro dos Negócios Estrangeiros e o Arcebispo de Paris, confessor do Rei.

Gabriel de la Reynie

Ao investigar a morte de um oficial do exército, a polícia encontra, por mero acaso, na sua casa uma colecção de venenos bem conhecidos, arsénio, cicuta, etc. E várias cartas para a sua amante, a Marquesa de Brinvilliers , onde se relatava a participação dos dois em vários atentados bem sucedidos. Logo se percebeu haver por ali uma rede bem organizada a ordenar os envenenamentos por razões que só se podiam adivinhar. A dita Marquesa entretanto desaparece, mas é encontrada num convento na Bélgica. Extraditada para França, sob tortura acaba confessando vários crimes, mas sem revelar nomes. Foi decapitada em frente ao Hotel de Ville, em Paris.

Marquise de Brinvilliers

Anos mais tarde, a polícia prende mais alguns suspeitos, tomando conhecidos de mais nomes envolvidos na conjura, entre eles Catherine Deshayes, apelidada La Voisin, especialista em magia negra e artes ocultas. Catherine era convidada famosa nos salões da alta aristocracia parisiense e proprietária de uma farmácia  onde vendia misteriosas poções e outros produtos secretos. Era também praticante de abortos, missas negras, orgias, feitiçarias e rituais com sacrifícios humanos. Dirigia também uma rede de agentes que incluía alquimistas, bruxas, padres de missas negras e charlatães da pior fama.

La Voisin

O verdadeiro escândalo rebentou quando o investigador conheceu os nomes dos clientes da La Voisin. Todos pessoas famosas, sobrinhas de cardeais, ministros, princesas, duquesas, duques, marqueses e poetas. Perante isto havia que prevenir o Rei que obviamente ficou paralisado de horror com as atrocidades que aconteciam no seu reinado. Foi então criada a comissão para lidar com todo este “Caso dos Venenos”.

Claro que La Voisin, em 1680, foi condenada a uma sentença atroz, onde lhe cortaram as mãos, sendo queimada viva em praça pública, mais uma vez em frente ao Hotel de Ville.

Mas a história continua, que falta o que nos interessa. A filha de La Voisin revela que a sua mãe fornecia várias poções venenosas para Madame de Montespan, amante preferida do Rei e mãe de seus 4 filhos, reconhecidos e apadrinhados. Montespan, com ciúmes de outra amante, teria encomendado a morte do rei e da sua jovem amante. Os dois crimes só não foram realizados porque La Voisin foi presa antes. Louis XIV interrompeu as investigações pois daí para a frente tratava-se de segredos da corte. Todos aqueles que souberam da ligação de Madame de Montespan e a bruxa foram enviados para prisões distantes de Versailles. Madame Montespan foi exilada para bem longe. Todos os documentos que a incriminavam foram queimados pelo próprio Luis XIV, após a morte da sua ex-amante em 1707.

Madame de Montespan

Pois bem, por causa desta longa história, quando o champanhe foi introduzido na corte de Louis XV criou-se o hábito do brinde: a pessoa olhava fixamente para os olhos de quem tinha servido a bebida, batia o copo de modo a provocar uma troca de gotas do líquido entre os dois copos e dizia: saúde!

Só no final do século XIX estas desconfianças começara a desaparecer.
Mas o brindar fazendo tilintar os copos quando se brinda permanece até hoje.

À saúde, com bom Syrah, livre de venenos.
E bom Ano Novo!