“Deixe-nos celebrar a ocasião com Syrah e palavras doces”, dizia Plauto, dramaturgo romano, no século II antes de Cristo. Assim damos início a mais um texto sobre a nossa bebida de eleição.
Reparem que basicamente andamos pé cá pé lá, ou seja, Aquém Tejo ou Além Tejo. Estivemos no Alentejo da última vez, agora voltamos ao Tejo. E que enorme prazer é este ziguezague constante, porque aqui nestas duas regiões encontra-se a grande maioria dos Syrah que conhecemos.
E quando se fala em Syrah nós dizemos: presente!
Hoje estamos na Quinta da Lapa, para falarmos do respectivo Syrah, a 100%, como gostamos e preferimos.
A Quinta da Lapa está implantada na região vitivinícola do Tejo, outrora denominada Ribatejo, onde vinho, cultura e história correm juntos desde os primórdios da Lusitânia.
O grande e caprichoso rio Tejo assume nesta região particular esplendor histórico, tanto por ser elo de ligação com Lisboa, como por ter sido ele próprio via de comunicação e comércio com toda a Europa. Os castelos templários e as grandes planícies de cultivo são disso testemunho.
As cheias e a força do rio fizeram com que ao longo dos tempos as terras essencialmente argilo-calcárias coleccionassem elementos raros como conchas e seixo rolado. Este aspecto define, quase só por si, a assinatura da Quinta da Lapa, havendo contudo ainda que lhe acrescentar a alternância dos dias tórridos e manhãs muito frescas no Verão, quando as uvas estão a robustecer-se para a vindima.
O perfil dos vinhos Quinta da Lapa é, por isso, a um tempo mineral e profundo, conseguindo aliar uma excelente maturação fenólica a uma grande frescura, quando normalmente isso só se consegue com vinhedos de altitude.
A Quinta da Lapa conta com 27 hectares de vinha em exploração, dividida em talhões com idades compreendidas entre 6 e 15 anos.
A orientação mais frequente das fiadas é nascente-poente, o que permite, quando se aproxima a vindima, uma maturação óptima dos bagos. Os dias são muito quentes mas à noite instala-se sempre a frescura, trazida pela brisa atlântica que ao longo de todo o ano se faz sentir.
As notas de prova do enólogo dizem-nos que tem “excelente cor. Aroma com notas de frutos pretos e especiarias típicas do Syrah. Bom volume de boca com taninos presentes, mas macios. Final longo.”
Conhecemos duas safras. A de 2010, e a actual de 2012. A fermentação é feita em cubas de inox com temperatura controlada. O estágio foi de 12 meses em meias pipas de carvalho francês e americano. Tem uma longevidade garantida pelo produtor de 8 anos. A graduação alcoólica é de 14%. O enólogo de serviço é Jaime Quendera.
Falemos agora um pouco da Quinta da Lapa. O lugar existe há mais de 300 anos e tem uma história condizente com esta temporalidade.
D. Lourenço de Almeida, governador de Pernambuco, filho do Conde de Avintes e oficiante na Ordem de Cristo, personifica grande parte da alma deste lugar único.
A casa da Quinta da Lapa acrescentou em 2011 uma nova página à sua história tricentenária ao assumir uma orientação mais voltada para públicos exteriores.
Eventos de empresa, casamentos e festas, e ainda a actividade do enoturismo criaram porta franca na propriedade. No processo de recuperação e restauro, tentou manter-se intacta a zona nobre do edifício principal – salas e capela -, enquanto nas áreas envolventes do pátio central se procurou criar zonas de grande conforto e flexibilidade.
O resultado foi a criação de onze suites, uma grande sala de eventos, e a preservação de um património de matriz espiritual de antiguidade considerável, que ultrapassa a própria capela. Falamos por exemplo de um painel de azulejos evocativo de Nossa Senhora da Lapa, datado de 1733, de características únicas.
As instalações de vinificação são contíguas à casa da quinta, e permitem a manipulação total das uvas e massas vínicas, desde a vindima até ao engarrafamento. A proximidade das vinhas é um factor importante para a qualidade da matéria-prima, refletindo-se na qualidade final dos vinhos. A base tecnológica instalada permite o controlo total da temperatura, em todas as fases, bem como dos tempos óptimos para cada perfil de vinho que se procura produzir.
As vinhas de castas brancas da Quinta da Lapa foram plantadas em 1992, enquanto a plantação das tintas aconteceu em 1997. O sistema radicular das videiras está nesta altura estabilizado, conseguindo-se resultados consistentes de ano para ano, tanto em termos de maturação fenólica como na expressão do terroir da quinta. Fica pois reunido um leque interessante de castas portuguesas, a que se juntam algumas internacionais, definindo bem a vocação internacional dos vinhos, ao mesmo tempo que se afirma o grande valor patrimonial das uvas autóctones.
As palavras doces de Plauto já foram referidas e glosadas, vamos agora celebrar a ocasião sorvendo o néctar divino da nossa Lapa de hoje!
Classificação: 15/20 Preço: 8,50€




