É sempre com enorme prazer que nos deslocamos a estes acontecimentos para sentirmos o pulsar dos que com paixão e entrega fazem o néctar de Baco, por nós tão apreciado.
Mais ainda porque, como não nos cansamos de repetir, as amostras presentes nos chegam da região portuguesa, Alentejo, com mais e melhor Syrah de Portugal, diríamos mesmo sem qualquer pudor, e do mundo. Um dia vamos tirar isso a limpo!
Falámos com produtores que já conhecíamos, fizemos novos contactos, insistimos na nossa predilecção junto dos mais renitentes, recolhemos opiniões e ideias, provámos do bom e do melhor, para nosso imenso deleite.
A organização estava perfeita e está de parabéns, todos os produtores devidamente identificados em igualdade de circunstâncias, gostámos da ideia de colocar imagens de qualidade para caracterizar com ritmo os diversos expositores presentes.
Terras D’Ervideira, foi por onde começámos o périplo. Simpatia e saber!Com José Rodrigues, Vinha das Virtudes, que nos presenteou generosamente com uma garrafa do novíssimo e premiado Humanitas Reserva Syrah… calorosamente agradecemos!Malhadinha Nova, pedindo mais…Classe, distinção e sabedoria. Margarida Cabaço… está tudo dito!Comenda Grande, falando com quem sabe fazer um grande Syrah!Dona Dorinda, chegando ainda mais acima na escala dos superlativos… e que enorme felicidade conhecer quem sabe de tal arte!Eis a grande novidade, tão ansiosamente aguardada, já nas nossas mãos: o Mil Reis!!!Falando e justificando o valor e um preço de Mil Reis… aceitámos, não temos mais remédio!Os génios por detrás de um dos nossos favoritos: Brett Edition Syrah!!!Cortes de Cima… que mais se pode dizer?!E com uma generosa oferta, que muito agradecemos, nos despedimos com amizade até ao próximo programa, dizemos, Syrah!
Havia muito que era devido começarmos a falar de Cortes de Cima e, claro, dos seus Syrah. Até que chegou a sua hora, que tudo acontece quando tem de ser.
Antes disto houve questões importantes que quisemos colocar a quem de direito e que não estavam respondidas no site oficial da herdade ou em qualquer dos outros lugares habituais. Já em 2013 tentámos um primeiro contacto telefónico. Nessa altura não havia ainda Blogue do Syrah e as tentativas foram infrutíferas. Em Agosto de 2015 estávamos a 50 km de Cortes de Cima e voltámos a telefonar. O simpático José Eduardo, que atendeu o telefone, o homem da informática de Cortes de Cima entre outras coisas, já conhecia o Blogue do Syrah e conseguiu que fossemos recebidos nesse mesmo dia com a dinâmica e empenhada assistente de enologia Helena Sardinha. Aos dois um obrigado especial do Blogue do Syrah, ainda mais porque na véspera de sermos recebidos tinham começado as vindimas em Cortes de Cima, e sabemos bem de como a vida de uma propriedade agrícola é bem complicada na época das vindimas, seguramente a altura mais importante do ano!
Falar de Syrah no Baixo Alentejo é falar obrigatoriamente de Cortes de Cima. Quando ainda por cima lá existem três Syrah! Se exceptuarmos a Quinta do Monte d`Oiro, de que iremos falar brevemente, Cortes de Cima é a propriedade agrícola que tem mais Syrah em simultâneo. E que igualmente apresenta maior continuidade durante mais safras de todo o país. Só isso chegaria para marcar a diferença. Mas há uma outra questão ainda mais importante: são todos de classe superior, diríamos mesmo mais, são todos especiais e empolgantes!
Hoje não iremos falar do Syrah da gama de entrada, também não falaremos ainda do topo de gama da casa e que foi o primeiro Syrah que Cortes de Cima produziu e que tem uma história incrível que iremos contar outro dia, mas do Syrah do meio, digamos assim, que foi o primeiro dos três que conhecemos.
A história conta-se desta forma singela: quando começou a nossa aventura de descobrir e divulgar os Syrah portugueses, este Homenagem foi dos primeiros a surgir na nossa investigação, mesmo também por se encontra largamente disponível em cadeias de hipermercados, e desde logo o nome suscitou enorme surpresa e curiosidade. Conhecíamos o escritor de contos para crianças Hans Christian Andersen mas não compreendíamos o porquê de um vinho alentejano ter o nome de um escritor dinamarquês. Como se diz em bom vernáculo: “Não batia a bota com a perdigota”. E isso levou-nos a investigar a história por detrás deste nome. Aí ficámos a saber que o produtor de Cortes de Cima, Hans Kristian Jorgensen, reparem na similitude dos nomes, é originário da Dinamarca e que se estabeleceu em Portugal com a mulher Carrie Jorgensen nesse ano já longínquo de 1988, e mudou o mapa dos vinhos alentejanos para sempre. Este Syrah foi na altura um desafio lançado pela embaixada da Dinamarca em Portugal para comemorar o 2º centenário do nascimento do supracitado escritor de contos infantis, Hans Christian Andersen (1805-1875). Três Dinamarqueses, Hans Kristian Jorgensen, o viticultor e enólogo de Cortes de Cima, juntamente com a sua prima, a artista gráfica Karen Blincoe, e a sua filha, a artista Anna, uniram-se para criar um vinho muito especial, e logo 100% Syrah, como nós gostamos que seja!
No ano de 1866, Hans Christian Andersen viveu três meses em Portugal, país ao qual chamou o “paraíso terrestre”, vá-se lá hoje compreender porquê. O texto contido na parte da frente da etiqueta que costuma acompanhar o Homenagem foi retirado do conto “O Sapo”, escrito durante a sua estadia em Portugal. Para assinalar este evento, foi criada a Fundação “HCA-abc”, instituída em nome de H. C. Andersen, com a finalidade de permitir que crianças e jovens de todo o mundo, tenham a oportunidade de aprender a ler e escrever. Para ajudar o objectivo humanitário desta Fundação, a Cortes de Cima faz uma doação por cada garrafa vendida. Beber este Syrah é também um acto filantrópico!
Produzido exclusivamente a partir da casta Syrah, as uvas foram rigorosamente seleccionadas pelo que estavam num óptimo estado de maturação. Foram fermentadas sem engaço, a temperaturas controladas, com um alargado período de maceração das películas para melhorar o aroma a frutos e conseguir um bom equilíbrio e estrutura de taninos. Envelhecido durante 8 meses em barricas de carvalho francês e americano, maturou assim até ao engarrafamento, em Julho de 2012. A graduação alcoólica é de 14%. As notas de prova que escolhemos falam de “aromas de frutos de bago escuro, groselha, mirtilos e cássis. Elegante no palato, revela fruta distinta e saborosa com madeira de qualidade bem integrada. Equilíbrio notável, boa estrutura de taninos, longo e persistente.” Nós acrescentaríamos a plenitude cultural, união de literatura em forma de subtil néctar com eflúvios de planície alongada sobre o horizonte setentrional. A colheita, produção e engarrafamento é feita na propriedade de Cortes de Cima. A tiragem foi de 12300 garrafas.
O Homenagem a Hans Christian Andersen teve até ao momento 7 safras. A de 2003, 2004, 2007, 2008, 2009, 2012 e a presente em análise de 2011. Estas constância de safras são a melhor prova do êxito deste Syrah que foi elaborado para ter uma vida curta, de um só ano comemorativo, mas que está aí para durar, sendo assim uma interminável e merecida homenagem, para nossa grande exultação!
“Dai-me Syrah para apagar as marcas que o tempo faz!” dizia o grande ensaísta, orador e poeta americano Ralph Waldo Emerson, fonte quase inesgotável de sabedoria, ou melhor ainda se o dizer for no idioma original: “Give me Syrah to wash me clean of the weather-stains of cares”. Mas se o Syrah for esta benfazeja Homenagem a Hans Christian Andersen, as marcas do tempo e da vida ficarão apagadas muito mais alongadamente!
Este é o único Syrah português que existe no mercado e que o Blogue do Syrah desconhece. E porquê? Não é por falta de tentativas da nossa parte! Vamos saber desta história.
Luís Duarte é um enólogo premiado em Portugal. Galardoado sucessivamente com o título de Enólogo do Ano em 1997, 2007 e 2014 pela WINE – Revista de Vinhos. Com mais de 25 anos de carreira, sempre no Alentejo, fundou em 2007 a Luís Duarte Vinhos, em Reguengos de Monsaraz, e hoje trabalha na produção, comércio e exportação de vinhos.
E foi aqui que começaram os nossos problemas. Há dois anos que tentamos de alguma maneira adquirir pelo menos uma garrafa deste Artefacto, sem sucesso. Isto porque simplesmente este Syrah não se encontra disponível em território nacional. Mesmo as várias vezes, e foram várias nestes dois anos, que chegamos telefonicamente à fala com o produtor, não houve grande interesse da parte dele em libertar algumas garrafas. Até mesmo a intervenção da garrafeira Estado d`Alma, com o interesse reforçado, foi infrutífera.
Deixem-nos contar os factos com mais detalhe. Numa consulta que fizemos ao blogue O Enófilo Principiante, surgiu-nos uma crítica justamente ao nosso arredio Artefacto Syrah. Através da caixa do correio mantivemos o seguinte diálogo com o blogger Sérgio Lopes:
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Sérgio Lopes, seria possível dizer-me onde encontrou este artefacto Syrah que andamos à procura dele faz mais de um ano e tem sido impossível, inclusivamente junto do próprio Luís Duarte…
Obrigado pela atenção!
O Blogue do Syrah
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Exacto, trata-se de um vinho bem feito. Apenas isso. Em Portugal não sei onde encontrar. Eu bebo-o aqui directamente do distribuidor, o irmão do Luís Duarte.
Melhores Cumprimentos / Best Regards,
Sérgio Lopes
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Sérgio Lopes, obrigado pela resposta rápida e precisa! Para nós trata-se dos poucos Syrah que não conhecemos. Já agora e só por curiosidade quando diz “Eu bebo-o aqui directamente do distribuidor, o irmão do Luís Duarte.” … este “aqui” penso que se refere a alguma zona do Alentejo…não?
E já agora…o irmão não seria capaz de nos arranjar uma ou duas garrafas? Ou é pedir muito?
Um abraço vinícola
Obrigado!
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Eu estou a morar em Luanda…
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Estávamos longe de imaginar tal coisa!… obrigado na mesma!…
O Blogue do Syrah
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Em registo muito pessoal pensamos que é um erro um produtor português só se preocupar com o mercado externo e descurar totalmente o mercado interno. Mais cedo ou mais tarde irá arrepender-se, dizemos nós.
Vamos pois falar citando sobre o que não conhecemos. As notas de prova –não confirmadas por nós – dizem que possui “cor ruby intensa. Aroma a fruta preta madura, especiarias, algum cacau e um toque balsâmico / mentolado. Boca redonda e fresca, focado na fruta, com taninos domados. A madeira confere-lhe uma boa estrutura estando perfeitamente integrada no conjunto. Apresenta um final sumarento e de boa persistência.” Estagiou durante 9 meses em barricas de carvalho americano. A graduação alcoólica é de 14%. Fica o vídeo, assim mesmo!
Acabamos com uma citação de Oscar Wilde: “Quando se trata de vinho eu tenho gostos muito simples: sempre escolho o que é melhor”
Infelizmente neste caso é coisa que não podemos dizer, temos gostos simples, e tentamos sempre escolher o melhor, desde que esteja a nosso alcance!
Hoje vamos falar de dois Syrah, diferentes no terroir, mas ligados à mesma empresa. Porém, ambos estão esgotados faz muito, para nossa sempre grande tristeza!
A história da empresa familiar João M. Barbosa é recente, se a compararmos com algumas empresas portuguesas, mas a experiência pessoal adquirida já é muita. Nela colaboram todos os membros da família, sendo total a dedicação para produzir o melhor e o mais original que a terra dá, tanto no Alentejo como no Tejo. Duas unidades modernas criadas para produzir vinhos autênticos e diferentes.
Desde pequeno que João Teodósio Matos Barbosa passeava com o seu avô, fundador da empresa Caves Dom Teodósio, observava as vinhas e o trabalho que lá se desenvolvia. É desta vivência que nasce a sua paixão pelo vinho e vontade de pertencer ao projecto familiar. Aprendeu e desenvolveu conhecimentos nas Caves Dom Teodósio, onde acabou por crescer com a empresa, caso de sucesso Português e marca referência no panorama vitivinícola nacional.
Em 1997, decidiu fundar a sua própria empresa, com produção a partir de uvas exclusivamente próprias, em produção integrada e biológica – vinhos de autor onde se expressa com inteira liberdade criativa, tirando sempre o melhor partido dos terroirs das duas regiões escolhidas. Cada uma dela, Tejo e Alto Alentejo, têm as suas adegas e respectivas marcas: Ninfa no Tejo (Adega Porta de Teira em Rio Maior) e Lapa dos Gaivões no Alto Alentejo (Adega Valle de Junco em Esperança, Portalegre).
João Barbosa não aceitou o desafio do Blogue do Syrah: fazer novas safras, do Lapa dos Gaivões e/ou do Ninfa! Até porque já passou um década sobre a realização dos dois Syrah que estamos aqui a relembrar… mas cada um sabe de si.
Sobre o Ninfa Syrah muito pouco podemos dizer. Não o chegámos a conhecer! Já estava esgotado aquando do nascimento do Blogue do Syrah. Em conversa com o produtor numa feira de vinhos alentejanos perdemos de vez a esperança de o poder ainda vir a encontrar. Se algum dos nossos leitores dele se recordar que venha aqui comentar de sua justiça!
Em relação ao Lapa dos Gaivões, conseguimos ainda uma garrafa, que muito nos agradou, o que fica demonstrado na nota que lhe atribuímos. O enólogo foi António Ventura, e as notas de prova dizem que tem uma “cor avioletada e aromas florais, frutados e ligeiramente abaunilhados, está ainda muito presente toda a sua juventude, com os taninos a mostrarem toda a sua força e as notas de madeira ainda bem vincadas na prova de boca, é complexo e encorpado e melhorará certamente com o tempo em garrafa, o final é prolongado.” O estágio decorreu em barricas de carvalho Francês “Allier” e Americano durante 12 meses. Tem 14% de graduação alcoólica.
Se Victor Hugo disse que “Deus criou a água, mas foi o homem fez o Vinho” então a João Barbosa Vinhos tem a obrigação moral de retomar o caminho já traçado e lançar-se na aventura da produção de um novo monocasta Syrah! Fica o repto…
Lapa dos Gaivões
Classificação: 17/20 Preço: 29,00€