Incógnito, Cortes de Cima, 100% Syrah, Alentejo, 2011

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Chegámos hoje a um momento alto no Blogue do Syrah, porque se há um Syrah capaz de atingir o espaço sideral mitológico, esse Syrah só pode ser o Incógnito! Mesmo estando a falar de acontecimentos que ocorreram nos últimos vinte anos, que quando falamos de Syrah em Portugal é tudo muito recente, este Syrah é já um mito vivo!

Vamos explicar como foi que tudo isto aconteceu, justificando o preço exorbitante que o Incógnito atinge, embora o seu produtor pouco se preocupe com isso, pois é um Syrah que se esgota safra após safra, e já lá vão onze, até esta que aqui nos traz, de 2011.

As notas de prova incluídas na garrafa dizem-nos que possui uma “mistura de frutos selvagens de bago vermelho, tosta de madeira, carne e notas de alcatrão. No paladar é complexo, com um forte paladar de fruta silvestre madura e um equilíbrio cativante. Suave no início, mostrando-se firme ao longo da prova, excelente estrutura de taninos e uma agradável frescura, com boa acidez a contribuir para um longo e persistente final.” Segundo o seu produtor vai manter-se grandioso pelo menos 10 anos. Safras anteriores do Incógnito já mostraram que a longevidade deste néctar está muito acima da média. Tem uma graduação alcoólica de 14,5%. O estágio foi feito em barricas de carvalho francês. A colheita, produção e engarrafamento é feito na propriedade familiar. Foi engarrafado sem filtração nem colagem em Julho de 2012. A produção total foi de 14.400 garrafas.

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Mas vamos então à história fantástica por detrás deste Syrah. E vamos dizer mesmo mais: não temos dúvidas ao afirmar que se esta história tivesse acontecido em outro lugar mais mediático, Estados Unidos, por exemplo, Hollywood já se teria encarregado de fazer um longa metragem… e que grande filme seria!

Vamos começar. Era uma vez um açoriano, da ilha Graciosa, Francisco Correia, que um belo dia de 1888, emigrou para os Estados Unidos, onde foi barbeiro e cortou o cabelo a muitos cowboys famosos, como Wyatt e Virgil Earp. Teve dois filhos e duas filhas e o mais velho dos quatro teve mais filhos e netos. Uma das netas chamava-se Carrie, que se veio a casar com um dinamarquês, Hans Jorgensen.

Engenheiro mecânico, Hans fez fortuna na Malásia, onde conheceu Carrie e, um dia, quis tornar-se viticultor, coisas do destino. Compraram um barco e começaram a viajar pelo mundo à procura do local ideal para plantar a sua vinha. Depois de terem visitado várias regiões do mundo, nomeadamente França (Vale do Rhône) e Espanha, de que não gostaram particularmente, chegaram a Portugal. Foi aí, aqui, cá, que os Jorgensen descobriram o que procuravam, perto da Vidigueira, sul de Portugal. Carrie achou a paisagem muito parecida com a da sua Califórnia natal, e o clima mediterrâneo bem diferente da fria Dinamarca de Hans.

Tinham chegado a Cortes de Cima, onde, em 365 hectares de terra, não havia uma só videira e onde apenas se produziam cereais, e com uma bela área coberta de oliveiras centenárias. Mas o clima e a simpatia das pessoas foram suficientes para decidirem concretizar ali o sonho de uma vida. Estávamos em 1988. Cem anos depois de Francisco Correia ter ido à procura do sonho americano, o destino colocava Carrie no país de origem do seu bisavô à procura do seu sonho lusitano!

Antes de plantar as vinhas, em 1991, o seu real objectivo quando comprou as terras, Jorgensen fez-se valer dos conhecimentos de engenheiro mecânico, que havia desenvolvido durante os 21 anos em que trabalhou numa fábrica de processamento de óleo de palma na Malásia, para dotar a futura vinha de uma infra-estrutura apropriada, de uma rede eléctrica e uma barragem para irrigação do vinhedo. Ao mesmo tempo, preciso e obsessivamente preocupado com os pormenores, Hans Jorgensen foi atrás dos conselhos de técnicos locais e de especialistas estrangeiros, para saber quais as castas a plantar. Ao contrário de toda a tradição vinícola daquela zona, que só tinha variedades brancas, plantou 50 hectares de castas tintas como aragonês, trincadeira, além de, seguindo as recomendações do viticultor australiano Richard Smart, e indo contra a regulamentação estabelecida, Syrah.

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Por isso é que se trata de um vinho histórico, porque foi o primeiro Syrah a ser produzido no Alentejo. Estávamos em 1998, quando a casta ainda não era permitida na região. Daí o nome provocador dado ao vinho, era um Syrah incógnito.

Na época, a casta Syrah não fazia parte das variedades autorizadas na designação Vinho Regional Alentejano (o que só veio a acontecer em 2002), obrigando Jorgensen a comercializar o vinho sem explicitar a casta no rótulo. Contudo, apesar de a casta Syrah não ser identificada, no contra-rótulo era dada uma pista, mais precisamente um acróstico, para quem soubesse ler na vertical e decifrar o enigma:

Select fruit from
Young vines, well
Ripened,
And hand
Harvested.

Literalmente: “frutas seleccionadas de vinhas jovens, bem maduras, e colhidas à mão”. Dessa colheita inicial de ‘Incógnito’, em Cortes de Cima, consta que só há… 4 garrafas! Para reforçar, Jorgensen ainda colocou a frase atribuída a Bob Dylan “To live outside the law, you must be honest”, que em tradução livre significa “Para viver à margem da lei, tem que se ser honesto”. Ou num tom ainda mais ético: “Só se pode viver à margem da lei se formos honestos”.

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A utilização de castas autóctones, verdadeiro património vitivinícola de Portugal e factor importante para se diferenciar no concorrido e estereotipado mercado internacional, foi, contudo, no princípio, um impedimento para o país ter a sua qualidade reconhecida pelos consumidores dos grandes centros urbanos, até pela dificuldade de conseguirem pronunciar os nomes – imaginem um americano tentando dizer “touriga nacional”, “trincadeira”, “alicante bouschet”. Jorgensen havia de comentar sobre as feiras internacionais em que participava no início da sua aventura vitivinícola, em que o público chegava a passar diante de seus vinhos e muitos voltavam atrás ao perceberem que existia um Syrah. Não foi com essa intenção que ele concebeu o Incógnito, mas não há dúvida que ajudou a divulgar as outras marcas que Cortes de Cima possui.

O sucesso alcançado pelo vinho “fora da lei” provou que a nossa casta Syrah se adaptou espectacularmente bem ao clima alentejano, fazendo com que o próprio Jorgensen ampliasse a área plantada por essa variedade em Cortes de Cima. O Incógnito, no entanto, continuou a ser produzido a partir apenas da vinha original, o talhão 9C, que ocupa parte do topo de uma colina e tem um solo particularmente calcário, formando uma mancha branca no terreno. Isso faz toda a diferença, ao conferir uma frescura particular que equilibra a maturação que o clima local instila na alma de um Syrah que habita no Olimpo dos néctares de culto.

Terminando por onde começámos, seria fantasioso desejar outro preço que não o sabido para uma garrafa que nos chega, não de uma montanha, mas de uma tão sagrada planície!

 

Classificação: 19/20                                                     Preço: 65,00€

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