Ao longo do tempo, podemos evoluir como ser humano da mesma maneira que um Syrah? (parte II)

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Continuando a dissertar sobre o tema iniciado no texto anterior, e em relação ao ser humano, podemos mudar alguns comportamentos, limar arestas, largar vícios, cria oportunidades, empreender decisões que transformam a nossa vida e lhe mudam o rumo, mas tudo isto – que implica já muito esforço e força de vontade – é apenas um arranhar na superfície do que somos essencialmente. De resto, e se pusermos de parte patologias e distúrbios psiquiátricos, os tipos de organização de personalidade são apenas três: neurótica (que embora usemos muitas vezes com sentido pejorativo corresponde à da maioria de nós e é a mais saudável), borderline (estado mental limítrofe entre a neurose e a psicose) e psicótica. E estas organizações são rígidas e não são intercambiáveis. Um neurótico não pode passar a psicótico nem a borderline ou vice-versa. São organizações de personalidade que se prendem com o tipo de angústia subjacente. Mantemos alguma plasticidade toda a vida, mas no que se refere à personalidade, que é algo muito nuclear, essa plasticidade é mínima.

Destes ramos mais periféricos fazem parte a mudança de comportamentos. Quando estamos conscientes das desvantagens ou dos problemas que um traço de personalidade nos traz, podemos estar dispostos a tentar alterá-lo. As pessoas não mudam completamente, mas um desorganizado pode aprender estratégias para ser mais organizado. Da mesma forma, um tímido pode desenvolver competências sociais para ser mais adequado, mas não se tornará uma pessoa extrovertida. E na base deste limar de arestas comportamentais estão, muitas vezes, os dissabores que os traços de personalidade nos trazem.

Um grande motor de mudança é o sofrimento. Uma pessoa que é tímida, que tem dificuldade em socializar e que se sente só, ao reconhecer isso pode fazer um esforço para melhorar a sua socialização. Muitas pessoas que passam por situações ameaçadoras como uma doença grave ou um acidente potencialmente fatal garantem que nunca mais se chatearam ou preocuparam com ninharias e a sua atitude perante a vida e os outros tornou-se diferente. Ouvimos o que nos dizem e parecem-nos pessoas muito diferentes do que eram. Será? Nem por isso!

Também as mudanças de vida radicais – que hoje vemos com alguma frequência – de pessoas que largam um emprego estável para iniciar um projecto social ou que, cansadas de uma vida agitada, empreendem uma mudança da cidade para o campo não significam que mudaram de personalidade, mas antes a forma como vivem. É uma necessidade de realização pessoal que as move, e, na realidade, a pessoa não está a transformar-se, mas sim a tentar alterar a sua realidade em função da sua maneira de ser e das suas necessidades.

Aliás, para tudo o que podemos, queremos ou devíamos mudar – e já vimos que a personalidade não faz parte deste grupo – é necessário ter consciência da desadaptação, estar motivado e aceitar ajuda. E, mesmo assim, temos pela frente um outro factor que não controlamos e nos condiciona: os nossos genes. Dizia Henry Miller que «Com raras excepções, as pessoas não se desenvolvem nem evoluem; o carvalho permanece um carvalho, o porco um porco e o asno um asno

Resumindo e concluindo: se tivermos um bom, ou mesmo um muito bom, Syrah pela frente, será mais difícil a um enófilo prever o seu “comportamento” em garrafa durante a sua evolução do que se conhecermos bem uma pessoa, porque é da nossa família, porque é nosso amigo, ou porque temos uma relação amorosa. Dito de outro modo, é mais fácil prever a reacção de uma pessoa que conhecemos bem, porque já lidamos com ela há bastante tempo, do que pode, em termos de previsibilidade, acontecer com a evolução de uma garrafa de Syrah.

Por isso é que abrir uma garrafa com dois anos, quatro, seis, dez ou mais anos é sempre uma surpresa para o mais bem preparado enófilo. A maior parte das vezes, se o Syrah é de qualidade, acontece uma surpresa muito agradável. Outras vezes, infelizmente, e sem estarmos à espera, uma certa decepção!

A complexidade de um Syrah é maior do que a dum ser humano…!


 

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