Daily Archives: 25/08/2016

A Syrah é um lugar comum no mundo do vinho?

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Vem este nosso texto de hoje a propósito de uma crónica de João Afonso intitulada “Made in Portugal to Usa” e publicada na Revista de Vinhos nº 320 do passado mês de Julho do corrente ano, na página 70. A crónica fala de um convite feito e aceite pelo cronista para se deslocar aos Estados Unidos e dar várias palestras sobre vinhos portugueses relativos a uma determinada região.

A questão que nos levou a escrever este texto tem a ver, como não podia deixar de ser, com o tema Syrah!
O cronista a dado passo da sua apresentação fala das castas tintas mais representativas em Portugal e, para além das castas autóctones, fala naturalmente das castas internacionais que segundo ele, “fazia torcer o nariz à maioria dos assistentes”. E acrescenta: “Alguém perguntou mesmo por que perdemos tempo a fazer vinho de Syrah. A Syrah é um lugar-comum no mundo do vinho. E interessa a Portugal, um país tão pequeno e diferente, estar nesse lugar-comum?”

Será que a Syrah é um lugar comum no mundo dos vinhos?
Será que Portugal é um país assim tão pequeno?
Fazer vinho de monocasta Syrah será mesmo perder tempo?

A Syrah é um lugar comum no mundo dos vinhos!
O que é que isto significa?
É por ser uma casta presente em todos os continentes? Por exemplo na Austrália é a casta número um. E o que dizer dos Syrah australianos? Esses americanos que se manifestaram nas palestras não conhecem o Syrah australiano? E o João Afonso o que diz sobre isto?

Portugal é um país tão pequeno. Será que isto é verdade? Das cerca de quinhentas castas existentes no mundo trezentas e cinquenta existem em Portugal!
Isto diz muito sobre a variedade e da possibilidade de fazer vinhos. O João Afonso sabe tão quanto nós que dos trezentos e cinco concelhos existentes em Portugal só dois, repetimos, dois, é que não têm vinha. Para que conste são a Amadora e o Barreiro. Isto é ser um país pequeno? A seguir aos colossos vitivinícolas da Europa, América, Austrália, China e África do Sul, Portugal vem imediatamente a seguir no décimo primeiro lugar, mas sendo de todos os países incomparavelmente o mais pequeno. Uma coisa é o tamanho do país em termos geográficos outra coisa é a percentagem de vinha plantada e aí ninguém nos supera.

Fazer monocasta Syrah será mesmo perder tempo?
Afirmar isto só pode ser por ignorância ou má fé. Mas tendo em conta o conhecimento que o Blogue do Syrah tem em relação ao mercado vinícola português é mesmo ignorância. Daí a razão da nossa existência.

E depois há um outro aspecto que não sabemos se o João Afonso tem plena consciência dele. É que o Syrah português é muito bom! Esse é outro aspecto que justifica a existência do Blogue do Syrah. Dizer que o Syrah português não é exportável é uma declaração infeliz. Damos só um exemplo: O Dona Dorinda, de Évora, custa no mercado português dezasseis euros e noventa e cinco cêntimos. Entre outros mercados é vendido nos Estados Unidos em dois restaurantes topo de gama de Nova York por noventa dólares a garrafa! É perda de tempo exportar Syrah português?

Não é uma casta autóctone, diz-se.
Esse é um argumento de peso que está no coração de muitos produtores, enólogos e enófilos.
É um argumento de peso porque é verdade e além disso a Syrah existe em Portugal há uns escassos vinte anos (falta definir exactamente o ano concreto. O Blogue do Syrah está a realizar uma investigação há algum tempo de modo a conseguir responder exactamente a essa questão…mas adiante). Mas se esse argumento só por si fizesse a diferença, não consideraríamos o Alicante Bouschet  como uma casta portuguesa, do Alentejo, que não é, mas está tão entranhada no vinho alentejano há mais de um século que ninguém hoje em dia diz que se trata de uma casta francesa, de Bordeaux. Não estamos a dizer que o mesmo pode acontecer ao Syrah. Mas se voltarmos a este argumento daqui a cinquenta anos de Syrah em Portugal será que ainda fará sentido?

Podia ter sido assim que o João Afonso responderia aos americanos que se referiram ao Syrah português da maneira como o fizeram. Não tira o mérito que as  castas autóctones possuem, mas não valoriza, por ignorância, a capacidade vitivinícola que Portugal possui.

Um agradecimento ao João Afonso cujo texto possibilitou esta réplica!