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Que bem que o nosso Syrah se dá por aqui…

Vale Zias, Fazendas da Estremadura, Sociedade Agrícola Unipessoal Lda, 100% Syrah, Lisboa, 2011

Do Alentejo para a região vinícola de Lisboa é um pulinho. O “terroir” é diferenciado mas mantém-se algo em comum: syrah de qualidade inolvidável. E o syrah que temos hoje para vos apresentar (os leitores do Blogue do Syrah merecem os melhores vinhos) é de excelência. Mais: o que também impressiona é a relação qualidade/preço, sempre muito importante para nós, constantes bebedores deste néctar dos deuses. Trata-se de um syrah cujo preço está claramente abaixo dos 5 euros, e em essência acima da média em termos de apreciação.

Reparem nas notas de prova: “cor rubi violácea, aromas com boa definição onde predominam frutos vermelhos e bagas, assim como aroma a frutos maduros e de grande estrutura, boca elegante de taninos redondos e maduros, final harmonioso e de boa persistência”. É preciso dizer mais?

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A vinificação é feita à boa maneira dos antigos. As uvas são fermentadas em lagar de forma tradicional.

Em conversa com o produtor e enólogo, Manuel Arsénio, que já o ano passado gentilmente se tinha encontrado connosco (e generosamente nos tinha dado a provar duas garrafas do Vale Zias que ainda se encontrava nas pipas, mostrando já toda a sua pujança!) ficamos a saber que o Vale Zias syrah conheceu 4 safras. Desde 2005, a primeira, com 5000 garrafas. A segunda em 2007 com uma subida brutal para 16000 garrafas. A terceira safra em 2009 com 18000 garrafas (situação não muito habitual para um monocasta syrah em Portugal) e finalmente a safra que hoje apresentamos, a de 2011, com 8500 garrafas, justificadas com o ajustamento ao mercado nacional tendo em conta o facto de que 85 a 90% de toda a produção se destinar ao mercado nacional.

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A empresa Fazendas da Estremadura, Sociedade Agrícola Unipessoal Lda foi fundada em 2005, no entanto as suas origens têm por base um cariz familiar, que já desenvolve a sua actividade agrícola na região vinícola de Lisboa há várias décadas, tendo procedido ao primeiro enchimento de vinho nos anos 30. E tem como principais actividades a produção e comércio de vinho engarrafado, produção de pêra rocha e consultoria técnica em Enologia.

Em frente de uma taça de Vale Zias, um melancólico dia destes, encontrámos alguns textos do poeta, matemático e astrónomo persa dos séculos XI e XII, Omar Khayyām, entre eles o poema RUBAIYAT, que nos diz o seguinte:

“Vinho faz perdoar a pena de viver.
Bebe vinho! Vinho cor de rubi, vinho cor-de-rosa, vinho cor de sangue!
Bebe vinho!
Tens muitos séculos para dormir.
Vinho é amargo? Não importa! Tem o gosto da vida!
Todos os reinos por uma taça de vinho precioso.
Todos os livros e toda a ciência dos homens por um perfume suave de vinho.
Todos os hinos de amor pela canção do vinho que corre.
Toda a glória de Feridoum pelos reflexos do vinho na ânfora.
Bebo o vinho que me oferece uma linda rapariga e não cuido de minha salvação.
Sempre ouço dissertar sobre os gozos reservados aos eleitos, limitando-me a dizer:
Só tenho confiança no vinho.
Bebe vinho!
Só ele te dará a mocidade, ele é a vida eterna.
Bebe um pouco de vinho porque dormirás muito tempo,
debaixo da terra, sem amigo, sem camarada, sem mulher.
Nosso amigo mais velho é o vinho mais novo.
O vinho destrói os cuidados que nos atormentam e nos dá a quietude perfeita.
Ouço dizer que os amantes do vinho serão castigados no inferno.
Se os que amam o vinho e o amor vão para o inferno o paraíso deve estar vazio.
Vinho! Eis o remédio que carece o meu coração doente.
Vinho com perfume almiscarado! Vinho cor-de-rosa!
Dá-me vinho para apagar o incêndio da minha tristeza.
Bebe e esquece que o punho da tristeza breve te derrubará.
Vinho! Vinho em torrentes! Que ele palpite em minha veias.
Que ele borbulhe em minha cabeça!
Quando bebo, ouço mesmo o que não me pode dizer a minha bem amada!
Mais vale uma ânfora de vinho do que o poder, a glória e as riquezas.
O vinho libertar-te-á das névoas do passado e das brumas do futuro.
O vinho inundar-te-á de luz, livrando-te dos grilhões de prisioneiro.
Quando Deus me criou sabia que eu beberia vinho.
Se me tornasse abstémio, sua ciência estaria errada.
Trazei-me todo o vinho do Universo!
Meu coração tem tantas feridas!…
O vinho proporciona aos sábios uma embriaguez semelhante à dos eleitos.
Dá-nos a mocidade, restitui-nos o que perdêramos, põe ao nosso alcance tudo o que desejamos.
O vinho queima como torrente de fogo,
mas, às vezes, tem sobre as nossas mágoas o efeito da água pura e fresca”.

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Agora uma pequena dica: guardem este syrah durante uns anos, apostamos, para já, em 4 anos, e depois vejam a evolução! Este é um syrah capaz de aguentar e melhorar com o tempo. Até apostamos, se for caso disso!

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E terminamos dizendo: se quiserem fazer um brilharete junto de amigos e familiares e não despender muito dinheiro, eis uma óptima opção: Vale Zias syrah!

 

Classificação: 16/20                                              Preço: 4,54€

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Quinta do Gradil, Sociedade Vitivinícola, SA, 100% Syrah, Lisboa, 2012

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A Quinta do Gradil, que fica no concelho de Cadaval, tem um Syrah que apenas foi produzido uma única vez, em 2012, e em circunstâncias muito especiais. Dizia Aquilino Ribeiro que “o pior crime é produzir maus vinhos e servi-los aos amigos”. Não podíamos estar mais de acordo. Não só porque é verdade mas também porque foi dito por um grande romancista que provavelmente não ganhou o Nobel da Literatura, nos anos 60, antes de Saramago, porque as condições políticas na época não eram propícias a tais desígnios.

Vem isto a propósito do seguinte: desde 2010 que a Quinta do Gradil organiza uma Festa de Vindimas singular, na companhia de convidados especiais, amigos, clientes e parceiros institucionais. Miúdos e graúdos passam momentos divertidos a colher as uvas, que darão depois origem a um vinho especial de edição limitada. Nas horas de mais calor, os mais pequenos ficam resguardados e entretidos com brincadeiras e pinturas. Daqui nasce uma tela alusiva à temática das vindimas, que será replicada no rótulo do vinho de edição limitada. Este é um produto diferente, singular, uma edição limitada a 1000 garrafas, resultado da vindima feita pelos adultos e das telas pintadas pelas mãos dos mais novos, que será oferecida aos convidados do ano seguinte. A seguir ao trabalho “árduo” de todos, segue-se um almoço descontraído e várias horas de festa, em pleno convívio. Boa comida, bom Syrah, muita música e, acima de tudo, muita animação! No final da festa, todos os convidados recebem como oferta uma garrafa do vinho de edição limitada, elaborada pelos convidados do ano anterior.

No ano de 2012 foi a vez do Syrah que apresentamos aqui, e cujas uvas foram vindimadas a 15 de Setembro de 2012 nesta festa de amigos. Diz-nos o produtor que “a casta mostra-se muito expressiva, com fruta vermelha bem madura e compotas, num conjunto enriquecido pelas notas de chocolate e eucalipto. Macio e volumoso, com uma acidez que lhe confere vivacidade, e um final prolongado e muito harmonioso.” Apresenta uma graduação alcoólica de 14,5%.

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E agora a história que se impõe!
A Quinta do Gradil, considerada das mais antigas, senão a mais antiga, herdade do Concelho do Cadaval, tem marcas históricas seculares e constitui um marco arquitectónico significativo. As mais antigas referências documentais encontradas sobre a Quinta do Gradil remontam ao final do século XV, num documento Régio. Em de 14 de Fevereiro de 1492, data do documento, D. Martinho de Noronha recebeu de D. João II a carta de doação da jurisdição e rendas do Concelho do Cadaval e da Quinta do Gradil. Por ocasião da ascensão de D. Manuel I ao trono português, e a sua actuação a favor dos membros da Casa de Bragança, a Quinta do Gradil torna a ser referenciada na confirmação de doação concedida por D. Manuel I a D. Álvaro de Bragança, irmão mais novo do 3º Duque de Bragança, D. Fernando II, que, acusado de traição, foi mandado degolar por D. João II, em 1483.

A Quinta terá sido adquirida pelo Marquês de Pombal, por ocasião do movimento que a partir de 1760 levou à ocupação de terras municipais, admitindo-se que já na altura contasse com o cultivo de vinha, factor que terá sido decisivo para o estadista que criou a Companhia das Vinhas do Alto Douro. Manteve-se na pertença da família até meados do século XX, quando foi comprada por Sampaio de Oliveira. Já nos finais dos anos 90, o actual proprietário, Luís Vieira, adquire a herdade.

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Nos 120 hectares de vinha encontram-se plantadas variadíssimas castas brancas e tintas. Sauvignon Blanc, Arinto, Viosinho, Viognier, Chardonnay, Petit Manseng, Cabernet Sauvignon, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Tannat, Petit Verdot e claro, Syrah, são alguns exemplos. Esta rica paisagem de vinha é da responsabilidade do Engº. Bento Rogado.
Todas estas uvas são vinificadas na adega da quinta, coordenada pelo Eng.º Pedro Martins, sob a batuta atenta dos enólogos Vera Moreira e António Ventura.

Acabamos como começámos.
Apesar deste Syrah ser apresentado como o resultado duma “brincadeira” entre amigos, o que temos entre mãos é sério e forte. Quando estiverem rodeados de amigos e quiserem apresentar um Syrah que não os decepcione, têm aqui uma boa opção!

Classificação: 16/20                                              Preço: 11,50€

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Vale das Areias, Sociedade Agrícola da Labrugeira, 100% Syrah, Lisboa, 2010

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Hoje apresentamos um syrah que, em Portugal e pela primeira vez, ganhou um concurso nacional de vinhos. Vamos repetir: O Vale das Areias syrah 2010 foi o primeiro syrah português a ganhar um concurso de vinhos tintos abarcando todas as regiões de Portugal. É o reconhecimento que os syrah podem dar cartas e que não é preciso ser obrigatoriamente um blend para causar sensação e ganhar o que houver para ganhar! Em que circunstâncias é que isso aconteceu é o que vamos a seguir explicar.

O syrah Vale das Areias Syrah 2010 foi o grande vencedor absoluto do Concurso Vinhos de Portugal, cuja primeira edição foi em 2013, o maior concurso de vinhos nacionais realizado até hoje no nosso país. Os premiados foram anunciados em cerimónia realizada no Pátio da Galé (Terreiro do Paço, Lisboa). Este concurso, organizado pela Viniportugal em Maio de 2013, recebeu mais de 1000 vinhos de todo o país e contou com mais de uma centena de provadores, entre os quais 36 estrangeiros de diversos países. A direcção técnica da prova esteve a cargo do único Master Sommelier português, João Pires, escanção em Londres. As provas decorreram no salão do CNEMA, em Santarém, e duraram de segunda a sexta-feira. Nos primeiros quatro dias os jurados pontuaram todos os vinhos para de seguida emergiram os candidatos a vencedores, os vinhos que tiveram pontuação para entrar nas medalhas de ouro. O último dia foi exclusivamente dedicado a escolher entre esses, 52, os que deveriam ascender à Grande Medalha de Ouro, o prémio máximo da competição. Essa tarefa coube a cinco jurados, capitaneados por Luís Lopes, director da Revista de Vinhos. Todos os outros jurados eram estrangeiros. De referir, que os vinhos vão a provas de forma anónima. E por todo isto se compreende que uma vitória neste concurso é algo de muito relevante.

Dito isto, é importante investigar um pouco sobre a origem deste syrah e saber de quem o faz!…

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Falamos pois da Sociedade Agrícola da Labrugeira, que produz e engarrafa vinho na antiga região da Estremadura, sendo a própria designação herdada da vinha mais antiga da família, situada no Vale das Areias, entre a capela dedicada a São Jorge e a Serra de Montejunto, Alenquer.
A paixão pela vitivinicultura foi passando de geração em geração, pelo que nos anos 90, fruto da vontade em aperfeiçoar a herança dos antepassados e das novas exigências do mercado, começou a modernização das vinhas e da adega, datada de 1930.

Procedeu-se ao estudo das condições do local, de forma a seleccionar as castas que permitissem alcançar os melhores níveis de qualidade. Optou-se por um rendimento baixo por hectare (através de podas severas e de mondas de cachos) e uma produção integrada, em cumprimento com as normas agro-ambientais. Foram assim escolhidas as castas nacionais Touriga Franca, Tinta Roriz, Castelão, Touriga Nacional e Fernão Pires, e as estrangeiras Sauvignon e, naturalmente, o nossa Syrah.

Foi na vindima de 2003 que se produziu o primeiro vinho a partir das novas plantações e, no ano seguinte, concluiu-se a reestruturação dos 15 hectares de vinha. Respeitando os ditames da natureza, efectua-se a vindima consoante a maturação de cada casta. Recolhem-se os cachos manualmente que são depois seleccionados para pequenas caixas individuais. Posteriormente, desengaça-se e esmaga-se suavemente as bagas, sendo a vinificação realizada em separado, casta por casta, parcela por parcela, em cubas de inox com controlo rigoroso e individual da temperatura (adaptável às características de cada mosto). A maceração nas cubas é prolongada, para que todos os componentes fenólicos sejam extraídos.
Em seguida, o vinho fica em estágio, em barricas de carvalho francês de qualidade, entre 6 a 12 meses. Finalmente é engarrafado, aguardando ainda na adega, em novo estágio, de 3 meses, até ser lançado no mercado.

O vinho é exportado para a Alemanha, Bélgica, Holanda, Polónia, Suécia e Suíça.

Voltando ao nosso syrah e em conversa com o responsável da quinta, o dr. Bernardo Nobre, ficamos a saber que se fizeram safras desde 2005 até 2013. Cinco mil litros em cada safra que deram cerca de 7000 garrafas. A vinha foi plantada em 2001 duma parcela única e a safra de 2010 teve o êxito já relatado.

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O grande problema é que este syrah não tem distribuição garantida. A única hipótese é encontrá-lo no hotel da quinta. De outro modo, hoje em dia, será quase impossível. Merece a pena a demanda!

O syrah, com 15% de teor alcoólico, apresenta “cor granada intenso, aroma intenso, complexo, com notas de baunilha e pimenta preta num conjunto bem casado com a madeira. Com bastante estrutura, envolvente e final longo, com taninos bons finais.”

E com esta descrição até apetece acompanhar com uma taça de Vale das Areias a leitura desta “Ode ao Vinho” de Pablo Neruda

Vinho cor do dia
vinho cor da noite
vinho com pés púrpura
o sangue de topázio
vinho,
estrelado filho
da terra
vinho, liso
como uma espada de ouro,
suave
como um desordenado veludo
vinho encaracolado
e suspenso,
amoroso, marinho
nunca coubeste em um copo,
em um canto, em um homem,
coral, gregário és,
e quando menos mútuo.

Às vezes
alimentas-te de recordações
mortais,
na tua onda
vamos de túmulo em túmulo,
pedreiro de gelado sepulcro,
e choramos
lágrimas passageiras,
mas
tu formoso
traje de primavera
és diferente,
o coração sobe pelos ramos,
o vento move o dia,
nada fica
dentro da tua alma imóvel.
O vinho
move a primavera
cresce como uma planta de alegria
caem muros,
penhascos,
se fecham os abismos,
nasce o canto.
Oh tu, jarra de vinho, no deserto
com a saborosa que amo,
disse o velho poeta.
Que o cântaro de vinho
ao beijo do amor soma o seu beijo.

Amor meu, rápida
a tua anca
é a curva suave
da taça,
o teu peito é a raiz,
a luz do álcool o teu cabelo,
as uvas o teu peito,
o teu umbigo estampa pura
marcado como taça no teu ventre,
e o teu amor a cascata
de vinho inextinguível,
a claridade que cai nos meus sentidos,
o esplendor terrestre da vida.

Mas não só o amor,
beijo ardente
o coração queimado
és, vinho da vida,
mas também
amizade entre os seres, transparência,
coro de disciplina,
abundância de flores.
Amo sobre uma mesa,
quando se fala,
à luz de uma garrafa
de inteligente vinho.
Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou copo de topázio
ou colher de púrpura
que trabalhou no outono
até encher de vinho as vasilhas
e aprenda o homem obscuro,
no cerimonial de seu negócio,
a recordar a terra e seus deveres,
a propagar o cântico do fruto.

Classificação: 17/20                                              Preço: 14,00€

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Quinta do Convento, 100% Syrah, Lisboa, 2008

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E voltamos a Lisboa, para desta vez ir ao encontro de mais um syrah de eloquente qualidade, mas difícil de encontrar. Trata-se do syrah da Quinta do Convento de Nossa Senhora da Visitação de seu nome completo, que está localizada em plena Serra de Montejunto. Esta quinta existe desde 1996 e surgiu após a recuperação da antiga casa senhorial do século XIX, em plena harmonia com a natureza e a tradição de um espaço com mais de 500 anos.

Vejamos a história contada pelos próprios. A Quinta guarda a memória dos jardins islâmicos dos finais do século X que os antigos almoxarifes dos castelos de Alenquer, Óbidos e Vila Verde dos Francos fundaram no isolamento da serra de Montejunto. Tendo sido conquistada por cruzados franceses, só se constituiria domínio senhorial em 1233, no reinado de D. Sancho I.

Gonçalo de Albuquerque, Senhor de Vila Verde, e pai de Afonso de Albuquerque, primeiro Vice-Rei da Índia, terá edificado o Convento da Visitação num local sem água. Nas primeiras décadas do século XVI, João de Castilho inicia a campanha de obras do segundo Convento, terminado em 1540. A sala do capítulo, mandada construir por Violante de Noronha, em 1660, é uma jóia do maneirismo português. A entrada do claustro para a igreja e a sacristia mantém alguns pormenores de frescos e brutesco do reinado de Filipe I.

Na nave central, e datada do mesmo ano de 1566, evidencia-se a pedra tumular do donatário deste convento da Ordem terceira de São Francisco, D. Pedro de Noronha Sexto, Senhor de Vila Verde e irmão de Afonso de Albuquerque. Também D. Catarina de Ataíde, a eterna namorada de Luís de Camões e mulher de D. Pedro de Noronha, Sétimo Senhor de Vila Verde, esteve sepultada na igreja antes de ser transladada para o Convento da Graça em Lisboa.

O corpo da igreja está revestido a azulejos de albarradas azuis e brancos do período Joanino, e os da capela-mor, do período rococó. Terão possivelmente sido encomendados a Valentim de Almeida pela primeira mulher do 1º Marquês de Pombal, Teresa de Noronha e Bourbon, donatária do Convento. Uma grande e longa história de que só mencionámos aqui alguns aspectos. É portanto um local que merece uma visita!

A Sociedade Agrícola da Quinta do Convento  gere actualmente um património florestal de cerca de 2000 hectares; um número de efectivos pecuários superior a 400 cabeças; 16 hectares de vinha com vista à obtenção de vinhos de elevada qualidade; espaços de elevada importância artística, histórica e cultural da Quinta do Convento e da Torre Bela.

Tivemos oportunidade de falar com Luís Barreto engenheiro técnico agrícola da Quinta do Convento sobre o syrah que é o objecto deste texto.

Syrah duma única safra do ano de 2008, foi só em 2004 que se começaram a produzir vinhos, com uma produção de apenas 3259 garrafas e com um teor alcoólico de 13,5%, apresenta-se segundo o produtor: Cor rubi intenso, com alguma complexidade aromática onde predominam notas de especiaria fina, cacau e pimenta preta. Na boca revela profundidade, taninos firmes que conferem estrutura e persistência.” Baudelaire escrevia no poema “A alma do vinho”:

Alma do vinho assim cantava na garrafa:
Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que se abafas,
Um cântico em que só há fraternidade e luz!”

A característica mais salientada pelo Eng. Luís Barreto foi o facto das vinhas estarem a 400 metros de altitude, o que não é muito vulgar nomeadamente na região de Lisboa, marcando desta maneira este terroir.

Só há dois locais onde é possível adquirir o nosso syrah da Quinta do Convento de Nossa Senhora da Visitação. Na própria quinta que fica em Vila Verde dos Francos, Rua Convento, 2580-442, ou então nos escritórios que ficam em Lisboa, nas Amoreiras, Rua Tierno Galvan, T3 – 13º piso.

É vendido em parte para o mercado externo, principalmente Dinamarca, Alemanha, China e Brasil. Não está presentemente colocada a hipótese de haver para breve uma segunda safra de monovarietal syrah, mas não é totalmente impossível, pois encontra-se syrah de 2013 em barrica, que é também usado desde o princípio para a feitura do Reserva, que é feito com touriga nacional e syrah. Obviamente que a última palavra será do enólogo quando chegar a altura de tomar uma decisão.
Ficamos a torcer que seja a nosso favor!
A bem da verdade do syrah!

Classificação: 17/20                            Preço: 6,20€

 

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Syrah de Lisboa (36)

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Hoje apresentamos a lista dos Syrah de Lisboa, região que anteriormente fazia parte da região vinícola da Estremadura juntamente com a região do Tejo. São vinte e um no total, e como mais uma vez se pode ver, cinco já se encontram esgotados. Há nesta zona Syrah de grande nível como são os casos da Quinta do Monte d´Oiro, ou o Grand´Arte, sem esquecer o Quinta de Pancas, infelizmente já desaparecido.
Alguns deles ainda puderam ser por nós apreciados, e no caso de outros sabemos que brevemente pode haver novidades. Noutros casos, infelizmente, o ano indicado é mesmo o último, pelo menos para já…
Nos Syrah onde estiver mencionado mais do que um ano significa que os conhecemos, o que não quer dizer que não haja outros anos.

ACL, 2009
ACL, Reserva Velharia, 2009
Arruda dos Vinhos, 2009 (esgotado)
Bonifácio, 2009
Casa do Cónego, 2004 (esgotado)
Casa Santos Lima, 2009
Casal Castelão, 2007
Confraria, 2012
Cepa Pura, 2013
Cortello, 2010 (esgotado)
Cortém, 2010
D´Arada, 2007
Feitorias

Grand´Arte, 2011
Homenagem a António Carqueijeiro, Quinta do Monte d`Oiro, 1999, 2001 (esgotado)
Humus, 2010
Lybra, Monte D´Oiro, 2011
Syrah Rosé, Monte D’Oiro, 2013
Monte da Caçada, 2014
Monte do Roseiral, 2012
Mundus, Adega Cooperativa da Vermelha, 2012

Pactus, 2007
Pynga, 2012

Quinta das Hortênsias, 2008
Quinta de Pancas, 2000 (esgotado)
Quinta do Convento de nossa senhora da visitação, 2008
Quinta do Gradil, Festa das Vindimas, 2012
Quinta do Gradil, 2013

Quinta dos Plátanos, 2013
Quinta de S. Jerónimo, 2007, 2009, 2011, 2013
Reserva, Monte d´Oiro, 2004
Reserva dos Amigos, 2004  (esgotado)
Syrah 24, Monte d´Oiro, 2007 2009
Vale das Areias, 2010, 2011
Vale Zias, 2011
Vinha da Nora, Monte d´Oiro, 2000 2005 (esgotado)


 

Grand´Arte, 100% Shiraz, DFJ Vinhos, Lisboa, 2011

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E temos, como não podia deixar de ser, um Syrah de Lisboa!
De um enólogo sobejamente conhecido da “afición” vinícola, o engenheiro José Neiva Correia, proprietário da DFJ Vinhos, casa que produz uma média anual de seis milhões de garrafas, distribuídas por 33 marcas e 77 vinhos diferentes, oriundos de quase todas as regiões vinícolas portuguesas.
Tendo em conta o panorama português, poderíamos chamar à empresa do Eng.º Neiva um potentado vinícola.

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Mas vamos concentrar-nos no que interessa, que é este “Grand`Arte”.

Primeira nota: desde logo salientamos que se trata do único syrah português que se apresenta com a grafia antiga, ou moderna, se quisermos, sem isto ser contraditório…
Expliquemo-nos! Shiraz foi o nome com que esta casta – que faz as nossas delícias – foi baptizada no mundo antigo, acerca de 3.000 anos. Ainda hoje existe no Irão, antiga Pérsia, uma cidade chamada Shiraz, a qual, segundo o antigo embaixador português em Teerão, Dr. José Manuel Arsénio (1998- 2005), que visitou essa cidade, ainda hoje produz uvas, exclusivamente para exportação, devido à religião  Islâmica que proíbe o consumo do álcool.

Portanto, segundo uma das fontes históricas disponíveis, há grandes probabilidades de esta ser a origem da casta syrah.

Com as cruzadas, no século XII, conta a história que um cruzado de volta à sua terra natal, em França, trouxe da Palestina, onde a casta Shiraz estava amplamente divulgada, umas quantas videiras, com o intuito de deixar de vez o mundo das armas e dedicar-se ao mundo dos vinhos.

Fixou-se no Vale du Rhône e plantou a Shiraz, cuja grafia foi afrancesada para Syrah. Mais tarde, a partir de França, espalhou-se por outros países europeus, como Itália e Espanha, potências vinícolas que introduziram a syrah francesa.
Até que chegamos a Portugal, em finais dos anos 80, muitos séculos depois!
Mas essa história extraordinária, a chegada da casta Syrah a Portugal, fica para outra altura!

A partir da Europa, a Syrah saltou para o Novo Mundo, assim como para a Austrália e também para a África do Sul, onde voltou às origens em termos de grafia, voltando a chamar-se de Shiraz. Daí a especificidade da grafia do nosso syrah em análise.

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Mas, vamos agora falar deste Shiraz “Grand D’Arte”, da Quinta Fonte Bela em Vila Chã de Ourique, no concelho de Santarém, ou seja, um regional de Lisboa, que possui uma graduação alcoólica de 13,5% e teve um estágio de três meses em barricas de carvalho francês.

Diz-nos o produtor que se trata dum Shiraz “…equilibrado, com taninos macios e um toque de baunilha e especiarias. Muito suave, fácil de beber e ao mesmo tempo, intenso, persistente e saboroso.” As várias garrafas que bebemos, ao longo deste último ano, vêm confirmar estas palavras! Já Ernest Hemingway dizia que: “Uma pessoa com o aumento do conhecimento e da educação sensorial pode obter prazer infinito no vinho.

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Em conversa com o Director Comercial e de Marketing da DFJ Vinhos, o Dr. Luís Gouveia, homem simpático e muito disponível para prestar todos os esclarecimentos, ficámos a saber que esta safra era a quarta, tendo as colheitas anteriores sido em 2005, 2007 e 2009.
Foram engarrafadas um total de vinte e quatro mil garrafas, embora a grande maioria tenha sido destinada ao mercado externo. Aqui, na Lusitânia, ficou apenas um décimo de toda a produção.

A grande novidade – que gostamos sempre de dar – é que a próxima safra, de 2012, está a caminho e sairá até ao final do ano, com uma produção superior à actual!
O Shiraz “Grand`Arte” tem a sua continuidade garantida! É uma alegria para nós!

Classificação: 16/20                            Preço: 7,95€

Ficha técnica