Monthly Archives: October 2015

Incógnito, Cortes de Cima, 100% Syrah, Alentejo, 2011

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Chegámos hoje a um momento alto no Blogue do Syrah, porque se há um Syrah capaz de atingir o espaço sideral mitológico, esse Syrah só pode ser o Incógnito! Mesmo estando a falar de acontecimentos que ocorreram nos últimos vinte anos, que quando falamos de Syrah em Portugal é tudo muito recente, este Syrah é já um mito vivo!

Vamos explicar como foi que tudo isto aconteceu, justificando o preço exorbitante que o Incógnito atinge, embora o seu produtor pouco se preocupe com isso, pois é um Syrah que se esgota safra após safra, e já lá vão onze, até esta que aqui nos traz, de 2011.

As notas de prova incluídas na garrafa dizem-nos que possui uma “mistura de frutos selvagens de bago vermelho, tosta de madeira, carne e notas de alcatrão. No paladar é complexo, com um forte paladar de fruta silvestre madura e um equilíbrio cativante. Suave no início, mostrando-se firme ao longo da prova, excelente estrutura de taninos e uma agradável frescura, com boa acidez a contribuir para um longo e persistente final.” Segundo o seu produtor vai manter-se grandioso pelo menos 10 anos. Safras anteriores do Incógnito já mostraram que a longevidade deste néctar está muito acima da média. Tem uma graduação alcoólica de 14,5%. O estágio foi feito em barricas de carvalho francês. A colheita, produção e engarrafamento é feito na propriedade familiar. Foi engarrafado sem filtração nem colagem em Julho de 2012. A produção total foi de 14.400 garrafas.

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Mas vamos então à história fantástica por detrás deste Syrah. E vamos dizer mesmo mais: não temos dúvidas ao afirmar que se esta história tivesse acontecido em outro lugar mais mediático, Estados Unidos, por exemplo, Hollywood já se teria encarregado de fazer um longa metragem… e que grande filme seria!

Vamos começar. Era uma vez um açoriano, da ilha Graciosa, Francisco Correia, que um belo dia de 1888, emigrou para os Estados Unidos, onde foi barbeiro e cortou o cabelo a muitos cowboys famosos, como Wyatt e Virgil Earp. Teve dois filhos e duas filhas e o mais velho dos quatro teve mais filhos e netos. Uma das netas chamava-se Carrie, que se veio a casar com um dinamarquês, Hans Jorgensen.

Engenheiro mecânico, Hans fez fortuna na Malásia, onde conheceu Carrie e, um dia, quis tornar-se viticultor, coisas do destino. Compraram um barco e começaram a viajar pelo mundo à procura do local ideal para plantar a sua vinha. Depois de terem visitado várias regiões do mundo, nomeadamente França (Vale do Rhône) e Espanha, de que não gostaram particularmente, chegaram a Portugal. Foi aí, aqui, cá, que os Jorgensen descobriram o que procuravam, perto da Vidigueira, sul de Portugal. Carrie achou a paisagem muito parecida com a da sua Califórnia natal, e o clima mediterrâneo bem diferente da fria Dinamarca de Hans.

Tinham chegado a Cortes de Cima, onde, em 365 hectares de terra, não havia uma só videira e onde apenas se produziam cereais, e com uma bela área coberta de oliveiras centenárias. Mas o clima e a simpatia das pessoas foram suficientes para decidirem concretizar ali o sonho de uma vida. Estávamos em 1988. Cem anos depois de Francisco Correia ter ido à procura do sonho americano, o destino colocava Carrie no país de origem do seu bisavô à procura do seu sonho lusitano!

Antes de plantar as vinhas, em 1991, o seu real objectivo quando comprou as terras, Jorgensen fez-se valer dos conhecimentos de engenheiro mecânico, que havia desenvolvido durante os 21 anos em que trabalhou numa fábrica de processamento de óleo de palma na Malásia, para dotar a futura vinha de uma infra-estrutura apropriada, de uma rede eléctrica e uma barragem para irrigação do vinhedo. Ao mesmo tempo, preciso e obsessivamente preocupado com os pormenores, Hans Jorgensen foi atrás dos conselhos de técnicos locais e de especialistas estrangeiros, para saber quais as castas a plantar. Ao contrário de toda a tradição vinícola daquela zona, que só tinha variedades brancas, plantou 50 hectares de castas tintas como aragonês, trincadeira, além de, seguindo as recomendações do viticultor australiano Richard Smart, e indo contra a regulamentação estabelecida, Syrah.

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Por isso é que se trata de um vinho histórico, porque foi o primeiro Syrah a ser produzido no Alentejo. Estávamos em 1998, quando a casta ainda não era permitida na região. Daí o nome provocador dado ao vinho, era um Syrah incógnito.

Na época, a casta Syrah não fazia parte das variedades autorizadas na designação Vinho Regional Alentejano (o que só veio a acontecer em 2002), obrigando Jorgensen a comercializar o vinho sem explicitar a casta no rótulo. Contudo, apesar de a casta Syrah não ser identificada, no contra-rótulo era dada uma pista, mais precisamente um acróstico, para quem soubesse ler na vertical e decifrar o enigma:

Select fruit from
Young vines, well
Ripened,
And hand
Harvested.

Literalmente: “frutas seleccionadas de vinhas jovens, bem maduras, e colhidas à mão”. Dessa colheita inicial de ‘Incógnito’, em Cortes de Cima, consta que só há… 4 garrafas! Para reforçar, Jorgensen ainda colocou a frase atribuída a Bob Dylan “To live outside the law, you must be honest”, que em tradução livre significa “Para viver à margem da lei, tem que se ser honesto”. Ou num tom ainda mais ético: “Só se pode viver à margem da lei se formos honestos”.

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A utilização de castas autóctones, verdadeiro património vitivinícola de Portugal e factor importante para se diferenciar no concorrido e estereotipado mercado internacional, foi, contudo, no princípio, um impedimento para o país ter a sua qualidade reconhecida pelos consumidores dos grandes centros urbanos, até pela dificuldade de conseguirem pronunciar os nomes – imaginem um americano tentando dizer “touriga nacional”, “trincadeira”, “alicante bouschet”. Jorgensen havia de comentar sobre as feiras internacionais em que participava no início da sua aventura vitivinícola, em que o público chegava a passar diante de seus vinhos e muitos voltavam atrás ao perceberem que existia um Syrah. Não foi com essa intenção que ele concebeu o Incógnito, mas não há dúvida que ajudou a divulgar as outras marcas que Cortes de Cima possui.

O sucesso alcançado pelo vinho “fora da lei” provou que a nossa casta Syrah se adaptou espectacularmente bem ao clima alentejano, fazendo com que o próprio Jorgensen ampliasse a área plantada por essa variedade em Cortes de Cima. O Incógnito, no entanto, continuou a ser produzido a partir apenas da vinha original, o talhão 9C, que ocupa parte do topo de uma colina e tem um solo particularmente calcário, formando uma mancha branca no terreno. Isso faz toda a diferença, ao conferir uma frescura particular que equilibra a maturação que o clima local instila na alma de um Syrah que habita no Olimpo dos néctares de culto.

Terminando por onde começámos, seria fantasioso desejar outro preço que não o sabido para uma garrafa que nos chega, não de uma montanha, mas de uma tão sagrada planície!

 

Classificação: 19/20                                                     Preço: 65,00€

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Reflexão sobre a classificação final da Prova Cega de Syrah de dia 3 de Outubro

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No dia 3 de Outubro de 2015 aconteceu pela primeira vez em Portugal uma prova cega exclusivamente de monocasta Syrah, com a participação de vinte e quatro produtores que forneceram vinte e seis Syrah levados a concurso.

A prova foi organizada e posta em prática pelo grupo Cegos por Provas, com o apoio e participação da garrafeira Estado D’Alma e o entusiasmo do Blogue do Syrah e do Clube de Vinhos Portugueses.

Algumas conclusões são assim possíveis de fazer, mais ou menos no calor do momento, embora haja outras considerações que iremos fazendo em próximas oportunidades.

resultados

A primeira e principal conclusão a retirar desta prova cega é que os grande vencedores foram os Syrah velhos. Ou seja, o primeiro classificado, o Incógnito é de 2002, e o segundo o Quinta de Pancas é do ano 2000. Foram os únicos vinhos desta idade a participar na prova e ganharam os primeiros prémios. O Incógnito saiu na prova do grupo B onde estava a participar o Blogue do Syrah (que foi premiado com a nota mais alta de 19). O Quinta de Pancas saiu no grupo A. Isto significa que houve uma posição geral dos jurados em considerarem os Syrah velhos como os melhores a concurso. Parece-nos que este é um dado objectivo. Sempre defendemos a tese de que um bom Syrah tem grandes capacidades de evolução em garrafa. Esta prova cega dá-nos razão. Surpresa para nós foi a conquista do terceiro lugar pelo alentejano Telhas.

Outra conclusão a tirar é que no top 10 encontram-se cinco Syrah alentejanos ou seja 50%. Depois a diferença classificativa entre os Syrah do top 10 é deveras muito pequena e isto também não deixa de ser impressionante de alguma maneira.

A grande surpresa reside no sétimo lugar, obtido pelo Syrah de Pegões! Grande surpresa!
O Plátanos de Lisboa que nem está ainda no mercado obteve um oitavo lugar. O para nós grande Syrah Quinta do Francês conseguiu um honroso quarto lugar. O top 10 acaba como começou. Com um Syrah de Cortes de Cima, desta vez com o Homenagem a Hans C. Andersen. O primeiro teve uma classificação de 17,06 e o décimo obteve 16,27.

Outra conclusão que temos que retirar e que aí sim, fomos apanhados de surpresa é que os Syrah orgânicos não sensibilizaram os jurados: Dona Dorinda do Alentejo, Quinta da Caldeirinha da Beira Interior e os dois Syrah da Quinta do Monte d`Oiro de Lisboa não cativaram os jurados de modo a obterem um resultado no top 10.

Syrah que consideramos de grande categoria ficaram arredados do top 10, injustamente. Pensamos que as suas qualidades ficaram diluídas no turbilhão de aromas, o que é natural.

A opção por dois grupos de jurados por necessidades não imputadas à organização (alguns dos produtores enganaram-se e só enviaram 3 garrafas quando o pedido tinha sido 4 garrafas) não ajudou a esta discrepância. Cada grupo só degustou e classificou 13 dos Syrah em prova. Alguns jurados do grupo A foram muito críticos na avaliação dalguns dos Syrah que não mereciam tamanha desfaçatez. Enfim, são critérios que temos que respeitar, apesar de não concordarmos.

Os quase 60 jurados enquadravam-se em três tipos de pessoas: Os especialistas de facto (produtores e enólogos), os enófilos (especialistas pela variedade) e o terceiro grupo constituído pelos leigos.

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O resultado é inequivocamente democrático. Todos participaram, todos eram a sua opinião. Mas será esta a melhor maneira?

Os parabéns do Blogue do Syrah aos vencedores da prova cega e muito especialmente ao Incógnito 2002. O blogue do Syrah deu-lhe a nota de 19 e em breve falaremos dele em profundidade! Grande Syrah!

Quinta do Francês, Quinta do Francês Patrick Agostini, Lda, 100% Syrah, Algarve, 2012

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Poderíamos começar esta nossa análise ao Syrah da Quinta do Francês 2012 fazendo uma analogia com a célebre frase de Bertold Brecht que diz: “Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, e estes são os imprescindíveis.” Com o Syrah poderíamos dizer qualquer coisa parecida, por exemplo: “Há Syrah que se bebe uma vez e sabe bem, há outros que se bebem algumas vezes e são melhores, mas há aquele Syrah que é muito bom e deve ser bebido e lembrado por muito tempo, tornando-se imprescindível”.

Quando no dia 10 de Março do corrente ano demos a novidade do novíssimo Syrah Quinta do Francês 2012 escrevemos o seguinte: “Um Syrah maior que a terra que o viu nascer!” Falávamos da segunda safra deste Syrah de Silves.

Quando foi publicada a análise do seu “irmão” de 2011, a 12 de Maio, que pode ser lida aqui, dissemos no post scriptum que em relação à safra de 2012: “Não o provámos! Ainda não tivemos coragem para isso! No fundo, temos receio de que a nova safra por muito boa que, eventualmente, possa ser, seja inferior à de 2011.“

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Mas agora já o degustamos. Chegou a hora de fazer a respectiva análise.
E as diferenças são as seguintes: em primeiro lugar o ano. O anterior era de 2011 e este é de 2012. A graduação alcoólica é também diferente. O de 2011 tinha 16% e este de 2012 tem “somente” 14,5%. Mas se no texto do Syrah de 2011 dizia-se a dado passo: “Tem uma graduação alcoólica de 16%, mas, não se assustem, nem se nota!” Hoje podemos dizer o mesmo em relação ao Syrah de 2012 mas de modo inverso, ou seja, se em relação ao de 2011 o significado de “…mas, não se assustem, nem se nota!” era de que ao degustá-lo parecia ter menor graduação devido à interpenetração de todos os elementos compostos que constituem o vinho, no Syrah de 2012 também podemos dizer “…mas, não se assustem, nem se nota!”, ou seja, ao degustá-lo não parece ter uma graduação inferior à safra de 2011, o que é extraordinário e a explicação é a mesma que demos anteriormente!

E há uma outra diferença e esta mais importante. Havendo alguém que perguntasse, por hipótese, ao Blogue do Syrah se perante duas garrafas de Syrah do Quinta do Francês, uma de 2011 e a outra de 2012 e se só pudesse escolher uma, qual das duas é que o Blogue do Syrah escolheria, a nossa decisão tombaria para o lado de 2011, porque tem mais 2 anos de evolução em garrafa em relação à actual, que veio para o mercado somente este ano! Mas dêem mais dois anos de evolução em garrafa ao Syrah Quinta do Francês 2012 e verão nessa altura as potencialidades demonstradas!

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Em suma, se é difícil obter a mais alta nota num vinho, ou seja no que for, muito mais difícil é conseguir apesar de tudo e todos, manter esse patamar de excelência, e o Syrah Quinta do Francês consegue-o na totalidade! Continuamos a sustentar tudo o que foi dito no texto sobre a safra de 2011 do Syrah da Quinta do Francês e somos de o reafirmar inequivocamente em relação à safra de 2012.

Experimentem e confirmem que não estamos a exagerar mas, caros leitores do Blogue do Syrah, se chegarem à conclusão que todas as palavras que acabam de ler são a pura das verdades, por favor, sim por favor, não comprem todas as garrafas porque nós aqui no Blogue do Syrah gostaríamos, até à próxima safra, de degustar mais algumas!

Mais uma vez não hesitámos: 20 valores, é assim o estofo dos imprescindíveis!

 

Classificação: 20/20                                                     Preço: 25,00€

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Um Momento Memorável! Prova Cega de Syrah, 3 de Outubro, Estado D’Alma – Bar & Bistro, Lisboa

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Estado D’Alma – Bar & Bistro, Lisboa, uma prova cega exclusivamente de Syrah, que foi efectivamente um momento memorável para todos os amantes desta casta.

Pela primeira vez em Portugal foi realizada uma prova cega com vinte e seis Syrah, representativos de todas as regiões do país, e com cerca de sessenta jurados, que degustaram e classificaram de zero a vinte alguns dos melhores Syrah portugueses.

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A prova decorreu em ambiente animado, e o Blogue do Syrah em conversa com muitos dos participantes concluiu do sucesso e da boa disposição que contagiou os jurados, havendo duas notas a destacar e que funcionaram como mais-valia deste evento.

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Em primeiro lugar, a organização deste acontecimento a cargo do grupo “Cegos por Provas”, que tiveram em atenção os mais pequenos pormenores, não descuraram nada nem ninguém de modo a que o resultado fosse do agrado de todos!

Em segundo lugar, o profissionalismo demonstrado pela equipa do “Estado D’Alma – Bar & Bistro” capitaneada pelo sommelier João Chambel e secundada por alguns dos elementos dos “Cegos por Provas” que foram incansáveis para que a prova decorresse com toda a normalidade e ritmo, a fim de que os jurados pudessem estar focalizados no seu trabalho: degustar, apreciar com rigor, avaliar e classificar os Syrah apresentados em conjuntos de três.

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Resultados finais, só mesmo daqui a dois ou três dias porque agora é necessário fazer as contas que se impõem (e não são poucas), de modo a obtermos um top ten dos Syrah portugueses submetidos a esta prova cega.

Por último, um agradecimento especial é devido aos produtores portugueses que graciosamente participaram nesta prova, que irá marcar indelevelmente o futuro dos Syrah portugueses!


 

Prova Cega de Syrah, amanhã, 3 de Outubro, 15:00, Estado D’Alma – Bar & Bistro

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É já amanhã que se vai realizar a anunciada Prova Cega, onde irão estar a julgamento 26 Syrah, para serem avaliados por cerca de 50 apreciadores, entre especialistas, produtores, enófilos, enólogos, sommeliers, público em geral e o que de mais etc houver que aprecie este nosso néctar de eleição!

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Obviamente que um acontecimento desta magnitude conta com todo o nosso apoio, com especial agradecimento ao Grupo do Facebook Cegos por Provas. Igualmente a contribuir para a festa, com todo o seu saber e paladar apurado, está a vasta comunidade, liderada por Jorge Cipriano, Clube de Vinhos Portugueses. Vai ser memorável.

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Nas palavras dos próprios: “Temos o prazer de anunciar mais uma “Cegada” que, achamos, será marcante. Desta feita iremos a Lisboa, ao Bar & Bistro Estado D’Alma, pôr à prova a casta Syrah. Estarão 20 produtores presentes que nos levarão alguns dos melhores Syrah nacionais. Todas as regiões que têm produtores a vinificar esta casta como monovarietal estarão representadas.”

Sobretudo estamos curiosos de saber como cumprem os nossos Syrah preferidos, ou seja, saber da unanimidade à volta das nossas classificações que rondam os máximos, ou vice-versa.

Lá nos vamos ver e, nos próximos dias, aqui estaremos a fazer o relato de tudo o que aconteceu!


 

 

Crasto Superior Syrah, Quinta do Crasto, 97% Syrah, 3% Viognier, Douro, 2013

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O Syrah da Quinta do Crasto é o terceiro Syrah a surgir no Douro, depois do Labrador da Quinta do Noval e do Quinta da Romaneira. Outros vêm a caminho. É do Crasto que vamos falar hoje.

Não defendemos que o Douro se deva encher da nossa casta favorita, até porque isso não faria qualquer sentido do ponto de vista histórico. O Douro é o Douro com as suas castas próprias, que têm imensos cultores dentro e fora de fronteiras, e assim deve continuar. Mas isso não invalida que não se possa fazer algumas experiências pontuais somente com uma única condição: devem ser de excelência.
E o Syrah Crasto Superior é de excelência!

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Como o próprio nome sugere, o Crasto Superior Syrah é feito com uvas provenientes da região do Douro Superior, mais precisamente da Quinta da Cabreira, localizada junto a Castelo Melhor e onde se encontram plantadas 114 hectares de vinha.

Trata-se de um Syrah com 3% de Viognier, opção do enólogo, que respeitamos mas como sempre preferimos os 100%, em que as uvas provenientes das plantações experimentais da casta Syrah estabelecidas em 2004 na Quinta da Cabreira, foram transportadas em caixas de plástico alimentar e sujeitas a uma rigorosa triagem à entrada na adega. Após um desengace total e um ligeiro esmagamento, as uvas foram transferidas para cubas de aço inox, onde decorreu uma maceração pré-fermentativa a baixas temperaturas durante 5 dias. De seguida desenrolou-se a fermentação alcoólica por um período de 7 dias, que foi seguida de uma prensagem muito suave e fermentação malolática em barrica de carvalho francês.

O solo é de xisto e a idade das vinhas é de 10 anos. O Syrah tem uma graduação alcoólica de 14%. A data de engarrafamento é de Maio do presente ano e o envelhecimento fez-se em barricas de carvalho francês durante 16 meses.

As notas de prova que escolhemos dizem-nos que tem uma “cor violeta escuro. No nariz mostra uma excelente projecção aromática, onde se destacam complexas notas de frutos silvestres, em perfeita harmonia com notas de cacau fresco. Na boca tem um início cativante, evoluindo para um vinho compacto, de grande volume e estrutura, composto por taninos frescos de textura aveludada e correcta acidez. Tudo muito bem integrado com agradáveis notas de frutos silvestres e suaves sensações florais. Termina equilibrado, fresco e com excelente persistência.” O enólogo, que merece desde já os nossos parabéns, é Manuel Lobo.

Agora é importante um pouco de história, que no caso presente é carregada de tempo e tradições. Estamos junto ao Douro, local de paisagem e beleza, serras e rio. As primeiras referências conhecidas da Quinta do Crasto datam de 1615, tendo sido posteriormente incluída na primeira Feitoria, juntamente com as Quintas mais importantes do Douro. Um marco pombalino datado de 1758 pode ser visto na Quinta. Logo no início do século XX, a Quinta do Crasto foi adquirida por Constantino de Almeida, fundador da casa de vinhos Constantino. Em 1923, após a morte de Constantino de Almeida, foi o seu filho Fernando de Almeida que se manteve à frente da gestão da Quinta dando continuidade à produção de Vinho do Porto da mais alta qualidade.

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Em 1981, Leonor Roquette (filha de Fernando de Almeida) e o seu marido Jorge Roquette assumiram a maioria do capital e a gestão da propriedade e, com a ajuda dos seus filhos Miguel e Tomás, deram início ao processo de remodelação e extensão das vinhas, bem como ao projecto de produção de vinhos Douro DOC pelos quais a Quinta do Crasto é hoje amplamente conhecida.

Situada na margem direita do rio Douro, entre a Régua e o Pinhão, a Quinta do Crasto, é uma propriedade com cerca de 130 hectares, dos quais 70 são ocupados por vinhas. Fazem também parte do património da empresa a Quinta do Querindelo, com 10 hectares de Vinha Velha, e a Quinta da Cabreira, no Douro Superior, com 114 hectares de vinha.

Com localização privilegiada na Região Demarcada do Douro, a Quinta do Crasto é propriedade da família de Leonor e Jorge Roquette há mais de um século. Como costuma ser com as grandes Quintas do Douro, a origem da Quinta do Crasto remonta a tempos longínquos – o nome Crasto deriva do latim “castrum”, que significa forte romano.

Os importantes investimentos realizados nos últimos anos permitiram modernizar as vinhas e as instalações de vinificação. Isto tem assegurado a produção de vinhos de elevada qualidade, tais como os vinhos Crasto, Crasto Superior e Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas; os vinhos monovarietais Quinta do Crasto Tinta Roriz e Quinta do Crasto Touriga Nacional, os vinhos monovinha Quinta do Crasto Vinha da Ponte e Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa, assim como também vinhos do Porto de categorias especiais Finest Reserve, LBV e Vintage.

Na Quinta da Cabreira foram implementadas novas vinhas, recorrendo sobretudo às castas mais tradicionais do Douro – Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca.

Toda a área de vinha está coberta por um sistema de rega gota a gota, que complementado por uma estação meteorológica própria, permite fazer frente ao clima mais seco e agreste que é característico do Douro Superior.

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O que foi extraordinário neste Syrah foi que só foi possível revelar todas as suas potencialidades deixando-o respirar. Fizemos uma primeira prova duas horas depois de o abrir e decantar, estava ainda muito fechado. Seis horas depois de o abrir estava bem melhor, mas sentimos que havia possibilidades de progressão. Nova tentativa vinte e quatro horas depois e agora sim, estava magistral. Valeu a pena a espera. O que não deixa de ser estranho. Um vinho novo precisar de tanto tempo para se “espreguiçar”, mas é assim. Uma nova garrafa será o tira teimas.

O grande político francês Talleyrand, figura polémica e pouco consensual, acusado de cinismo e imoralidade, mas aqui não é o lugar para ir mais fundo nestes assuntos, disse: “Antes de levar tal néctar aos seus lábios, você olha segurando alto a sua taça, cheira longamente, e então, a taça colocada na mesa … falamos!”

Mas quanto à qualidade deste Syrah dúvidas não temos: é mais um magnífico exemplar de qualidade que o Douro foi capaz de produzir. Esperamos que seja para continuar!

Classificação: 19/20                                                     Preço: 22,00€

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