Monthly Archives: November 2015

Monte da Colónia, 100% Syrah, Alentejo, 2012

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Desde Fronteira,  distrito de Portalegre, chega-nos este Syrah de 2012, de nome Monte da Colónia. É o terceiro Syrah que existe em Fronteira, os outros dois são o Monte da Cal e o Telhas, e mostra as características desta nossa casta exposta às soberbas condições edafoclimáticas da região, onde as vinhas do Monte da Colónia estão instaladas.

A vindima manual foi feita no inicio de Setembro, seguido de desengace total e esmagamento. A fermentação foi feita em cuba de inox com curtimenta e controlo de temperatura a 27ºc. A desencuba e prensagem são ligeiras, executadas em prensa vertical. Segue-se a fermentação malolática e por fim filtragem e engarrafamento, que foram realizados em Julho de 2013.

É um Syrah de qualidade que será certamente candidato ao prémio de melhor Syrah de 2015 na relação qualidade/preço, visto que custa em Lisboa menos de seis euros.

A empresa foi fundada em 1980 pela geração anterior, na altura uns jovens com fortes espectativas de futuro, muita ambição e espírito de equipa que decidiram arriscar, erguendo uma empresa que ainda hoje está no mercado, essencialmente de cariz familiar, onde as grandes decisões são tomadas por dois irmãos.

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O objectivo fundamental da empresa é o da produção e transformação de produtos cultivados no próprio local, azeite, azeitonas de conserva e vinhos, bem como a criação de gado bovino e ovino.

Actualmente com um lagar de azeite de extracção a frio altamente modernizado, que veio substituir o tradicional lagar de prensas, onde não só se labora a azeitona própria, oriunda dos olivais do Monte, como também de alguns olivicultores da região.

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Com uma área de 600 hectares, e diversificadas características, são assim exploradas diversas espécies vegetais e animais, destacando-se a espécie bovina e ovina, das espécies vegetais podemos destacar os 100 hectares de olival composto por diversas qualidades de azeitona.

Planícies a perder de vista, um céu que adormece glorioso, casas brancas debruadas a azul, com janelas para a tranquilidade, e os melhores sabores! Falamos, claro está, do Alentejo, seduzidos pelo Monte da Colónia. A herdade, situada em Vale de Seda, concelho de Fronteira, produz vinho, azeite e azeitonas com a chancela da região. E, para bem da nossa boca, a tradição por aqui permanece!

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Relativamente à Vitivinicultura, praticada apenas nos últimos 14 anos, mas por sinal muito bem concebida, uma vez que lentamente tem conseguido adquirir todo o equipamento necessário para que se possa fazer todo o processo desde a vindima, fermentação, engarrafamento, rotulagem, sistema de frio, enfim, o Monte da Colónia tem todo o equipamento necessário de modo a facilitar não só o processo, como o trabalho. Em média a empresa produz 100 mil litros de vinhos tintos divididos em várias referências (tinto normal, colheita seleccionada, monocasta Syrah, alicante bouschet e reserva e bag in box), 10 mil litros de branco uma monocasta arinto, 6 mil litros de vinho rosé Syrah, ocupando assim uma área de 20 hectares de vinha com as castas, aragonez, cabernet sauvignon, arinto, alicante bouschet , castelão, Syrah, trincadeira, verdelho, etc., tudo conjugado sob batuta e o saber do enólogo Rui Vieira.

Marcel Pagnol disse que “Quando o vinho é engarrafado, ele deve ser bebido … especialmente se é bom”.

Temos aqui um bom exemplo com o Syrah Monte da Colónia!

 

Classificação: 17/20                                           Preço: 5,85€


 

O Cheiro do Vinho

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Vagueando este Domingo por alguns pensamentos, vamos falar de vários termos que podemos usar para designar a subtileza de um vinho quando nos aproximamos dele: perfume, odor e, principalmente, “aroma” e “bouquet”, que designam os cheiros agradáveis que o vinho pode libertar.

O cheiro do vinho depende da uva, da terra, da sua idade e do seu estado de conservação.
É muito importante diferenciarmos buquê, (aportuguesamento do vocábulo francês) de aroma, e dar o correcto significado para cada um deles.

Os especialistas costumam diferenciar o buquê de três formas básicas:

  • O primeiro grupo diz que vinho branco tem aroma e vinho tinto tem buquê, uma vez que, normalmente, os vinhos brancos são bebidos jovens e, por isso, não conseguem criar essa característica, mas claro que existem excepções.
  • O segundo grupo de especialistas afirma que o buquê é percebido pelo olfacto e aroma por via retronasal, quando o vinho está na boca para consumo e poderíamos dizer que nesse caso temos o “aroma de boca”.
  • O terceiro grupo que é o mais comum, diz que o aroma é um princípio odorante libertado pelas substâncias vegetais dos vinhos jovens, que se pode respirar, e buquê é o cheiro adquirido pelo envelhecimento.

Logo, os vinhos mais jovens agradam pelo aroma e os envelhecidos pelo buquê. É subtil e não merece discussão entre os convivas.

Podemos continuar o estudo com os aromas primários (preexistentes na uva) e os secundários (criados na fermentação) mas, sinceramente, esse assunto merece um vinho para acompanhar…e no nosso caso só pode mesmo ser um Syrah!

Consultem o Blogue do Syrah e façam a vossa escolha…

À nossa!


 

2 momentos audiovisuais descontraídos e engraçados…

…como fazer vinho gasoso em casa!

 

…as 10 técnicas mais inventivas para abrir garrafas de vinho!

E havendo tentações, aqui fica o aviso do costume: não façam isto em casa!


 

Artefacto, 100% Syrah, Alentejo, 2010 -Revisitado Luís Duarte, o enólogo que entrega o “ouro ao bandido”

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Este é o segundo texto que escrevemos sobre o Syrah Artefacto, de 2010, do enólogo e produtor Luís Duarte.
Se já aqui contamos uma das peripécias que passámos por ser impossível encontrar este Syrah de Reguengos de Monsaraz em Portugal, os sobressaltos continuam, pois tal como foi aí dito, há dois anos que tentávamos de alguma maneira adquirir pelo menos uma garrafa deste Artefacto, sem sucesso.
Isto porque simplesmente este Syrah não se encontra disponível em território nacional. Mesmo as várias vezes, e foram várias nestes dois anos, que chegamos telefonicamente à fala com o produtor, não houve grande interesse da sua parte em libertar algumas garrafas para ser por nós avaliado. Até mesmo a intervenção da garrafeira Estado d`Alma, sempre diligente nestes assuntos e reforçando o interesse, foi infrutífera.

Hoje gostaríamos de relatar a continuação desta aventura que também aconteceu este ano e a propósito deste Artefacto.

O Blogue do Syrah está presente em várias dezenas de grupos Facebook ligados à temática do Syrah. É óbvio que ao longo de muitos meses fomos desenvolvendo relações de conhecimento à volta do tema com muitas pessoas que não conhecemos pessoalmente. Uma dessas pessoas foi Roberto Simon Neto, administrador do grupo Vinhos da Terra, que tem mais de 3500 membros, todos activos e conhecedores. Este grupo é brasileiro e sediado em Salvador da Baía.
Em Março deste ano vemos uma imagem do Artefacto Syrah, com legenda do Roberto, a perguntar se o Blogue do Syrah o conhecia. Ficamos obviamente siderados pela pergunta, pois era o único Syrah português do mercado sobre o qual não podíamos opinar. Quando lhe perguntamos onde é que tinha tido acesso ao Artefacto a resposta veio rápida:
“No supermercado ao fundo da minha rua.”
Nem queríamos acreditar. Contamos a história do Artefacto ao Roberto, do que aqui se passava, para gáudio geral, que imediatamente se disponibilizou a trazer-nos uma garrafa quando viesse a Lisboa. Generosidade brasileira no seu melhor e alegria incontida da nossa parte.

Em Setembro passado não veio o Roberto mas veio a sua irmã, Beatriz Simon, que generosamente e sem nos conhecer de lado algum, se dispôs a trazer-nos o nosso muito desejado Syrah Artefacto. Feita a entrega em mão, eis que o tão famoso estava em poder. Finalmente!
Vejam bem a volta que ele deu até chegar à nossa mesa!

Como tivemos oportunidade de referir no texto anterior, a maneira como o produtor distribui este Syrah é um erro crasso, pois só se preocupa com o mercado externo e descura completamente o mercado interno.

O concelho de Reguengos de Monsaraz tem vários Syrah, já todos apresentados pelo Blogue do Syrah, e pensávamos que este seria um Syrah bom como os outros bons Syrah do concelho mas que eventualmente não estaria a um nível de qualidade superior.

Quando chegou a altura de finalmente o podermos apreciar integralmente, e ao fim de dois anos de procura intensa pelo Artefacto, que nos levou a Luanda e agora a Salvador da Baía, ficamos extasiados! É que este Syrah era tão somente um topo de gama, e o que escrevemos na altura sem conhecimento de causa podemos agora afirmar com todas as letras, pois dizemos com enfâse que possui “cor ruby intensa. Aroma a fruta preta madura, especiarias, algum cacau e um toque balsâmico / mentolado. Boca redonda e fresca, focado na fruta, com taninos domados. A madeira confere-lhe uma boa estrutura estando perfeitamente integrada no conjunto. Apresenta um final sumarento e de boa persistência.”

Diríamos hoje, cinco anos após ter sido feito, que tudo isto se confirma de um modo superlativo! Trata-se de ouro vinícola e aqui a nossa crítica vira-se de novo contra o enólogo, Luís Duarte, que é de facto mestre a fazer vinhos, mas que tem tão pouca consideração pelos seus conterrâneos. Daí o nosso subtítulo: O enólogo que entrega o “ouro ao bandido”!

D. Cooper disse uma vez que “O Syrah estimula o apetite e dá sabor aos alimentos. Promove as discussões, a euforia e pode transformar uma simples refeição em um evento memorável!”

Este Syrah tem a ver com tudo isto, como acabamos de contar!

 

Classificação: 18/20                                                Preço: Oferta


 

Quinta de Ventozelo, 100% Syrah, Douro, 2014

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Da mítica Quinta de Ventozelo temos mais um Syrah do Douro, com data de 2014.
Muito fresco, bastante jovem, e mesmo assim tem 15% de graduação alcoólica. Trata-se de um Syrah sem madeira, e a mesma Quinta de Ventozelo prepara-se para lançar brevemente um Syrah feito com madeira! Será a primeira vez que tal se faz em Portugal! O mesmo “terroir” e no mesmo ano produzir um monocasta Syrah com e sem madeira. Apreciámos bastante a ideia, e aguardamos ansiosos a segunda parte.

A Quinta de Ventozelo possui uma equipa de enologia de que é Diretor José Manuel Sousa Soares, e é uma das duas maiores da região. São 400 hectares, 200 dos quais ocupados por vinha (estão a ser replantados 40 hectares, nos quais as castas estrangeiras como o Merlot e o Cabernet Sauvignon vão ser substituídas por castas portuguesas), aos quais se junta o olival e uma área grande de caça.

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A Quinta do Ventozelo foi comprada no ano passado pelo Grupo Gran Cruz, que pertence aos franceses do La Martiniquaise, produtores de vinho do Porto desde os anos 1940 e hoje os maiores exportadores deste produto. Dos seus 200 hectares de vinha tira-se uva para vinho do Porto, mas começa-se também a fazer vinhos do Douro — alguns dos quais acabam de chegar ao mercado.

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Segundo Jorge Dias, director-geral do Grupo Gran Cruz, a quinta existe desde o século XVI, mas que escavações arqueológicas revelaram vestígios de uma aldeia conhecida como Ventozelo desde o século XII. A plantação da vinha, essa, terá começado mais tarde, pelo século XVIII. O desenvolvimento e exportação dos vinhos do Douro, e em particular os da Quinta do Ventozelo, é uma das grandes prioridades do grupo Gran Cruz para o próximo ano. Embora se trate ainda de um nicho o objectivo  é fazer  200 mil garrafas de vinho do Douro contra 25 milhões de vinho do Porto. Foi assim criada uma marca premium, permitindo igualmente aprovisionar uvas para as outras marcas do grupo, a Porto Cruz e a Dalva. Com a marca Ventozelo acabam de chegar ao mercado o Ventozelo Douro Viosinho 2014, o Branco de Ventozelo Douro 2014 e o nosso Ventozelo Syrah Regional Duriense Unoaked 2014.

Para perceber qual a estratégia do grupo, é preciso recuar no tempo e contar um pouco da sua história. A Cruz é a maior marca internacional de Porto e exporta anualmente 10 milhões de garrafas para todo o mundo. É uma marca que foi quase construída fora do país, sobretudo com a histórica campanha em França em que uma mulher de negro é fotografada em várias paisagens de Portugal, acompanhada pela frase “O país onde o negro é cor”.

A Gran Cruz é uma empresa familiar que se desenvolveu sobretudo no pós-guerra, que ocupa este cargo desde 2009. Inicialmente a Gran Cruz comprava vinho a granel em Gaia para o engarrafar em Paris. Mas em 1975 a família decide investir em Portugal para começar a fazer o aprovisionamento na origem, antecipando-se em 15 anos à decisão do Estado português de proibir a exportação a granel. A partir de 1982, começam a engarrafar exclusivamente em Gaia.

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Em 2007, o grupo comprou a empresa C. da Silva, proprietária da marca Dalva, tornando-se dona de um valioso stock de barricas de vinho do Porto, entre as quais vários Colheitas. Surgiu depois o enorme investimento, de 16 milhões de euros, numa moderníssima adega em Alijó, inaugurada no ano passado, e a abertura do Espaço Porto Cruz, na marginal de Vila Nova de Gaia.

Horácio, um dos maiores poetas da Roma Antiga, disse que “O vinho revela os sentimentos.” O Syrah da Quinta do Ventozelo tem essa capacidade como grande Syrah que é, sobretudo também porque se revelou na dupla degustação a que foi sujeito com uma enorme capacidade de evolução. É isto que costuma acontecer quando se prova um Syrah do ano anterior como é o caso.

Em conclusão, este Syrah faz justiça ao número reduzido a que pertence: o grupo dos grandes Syrah do Douro!

Classificação: 17/20                                                     Preço: 10,89€


 

Ao longo do tempo, podemos evoluir como ser humano da mesma maneira que um Syrah? (parte II)

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Continuando a dissertar sobre o tema iniciado no texto anterior, e em relação ao ser humano, podemos mudar alguns comportamentos, limar arestas, largar vícios, cria oportunidades, empreender decisões que transformam a nossa vida e lhe mudam o rumo, mas tudo isto – que implica já muito esforço e força de vontade – é apenas um arranhar na superfície do que somos essencialmente. De resto, e se pusermos de parte patologias e distúrbios psiquiátricos, os tipos de organização de personalidade são apenas três: neurótica (que embora usemos muitas vezes com sentido pejorativo corresponde à da maioria de nós e é a mais saudável), borderline (estado mental limítrofe entre a neurose e a psicose) e psicótica. E estas organizações são rígidas e não são intercambiáveis. Um neurótico não pode passar a psicótico nem a borderline ou vice-versa. São organizações de personalidade que se prendem com o tipo de angústia subjacente. Mantemos alguma plasticidade toda a vida, mas no que se refere à personalidade, que é algo muito nuclear, essa plasticidade é mínima.

Destes ramos mais periféricos fazem parte a mudança de comportamentos. Quando estamos conscientes das desvantagens ou dos problemas que um traço de personalidade nos traz, podemos estar dispostos a tentar alterá-lo. As pessoas não mudam completamente, mas um desorganizado pode aprender estratégias para ser mais organizado. Da mesma forma, um tímido pode desenvolver competências sociais para ser mais adequado, mas não se tornará uma pessoa extrovertida. E na base deste limar de arestas comportamentais estão, muitas vezes, os dissabores que os traços de personalidade nos trazem.

Um grande motor de mudança é o sofrimento. Uma pessoa que é tímida, que tem dificuldade em socializar e que se sente só, ao reconhecer isso pode fazer um esforço para melhorar a sua socialização. Muitas pessoas que passam por situações ameaçadoras como uma doença grave ou um acidente potencialmente fatal garantem que nunca mais se chatearam ou preocuparam com ninharias e a sua atitude perante a vida e os outros tornou-se diferente. Ouvimos o que nos dizem e parecem-nos pessoas muito diferentes do que eram. Será? Nem por isso!

Também as mudanças de vida radicais – que hoje vemos com alguma frequência – de pessoas que largam um emprego estável para iniciar um projecto social ou que, cansadas de uma vida agitada, empreendem uma mudança da cidade para o campo não significam que mudaram de personalidade, mas antes a forma como vivem. É uma necessidade de realização pessoal que as move, e, na realidade, a pessoa não está a transformar-se, mas sim a tentar alterar a sua realidade em função da sua maneira de ser e das suas necessidades.

Aliás, para tudo o que podemos, queremos ou devíamos mudar – e já vimos que a personalidade não faz parte deste grupo – é necessário ter consciência da desadaptação, estar motivado e aceitar ajuda. E, mesmo assim, temos pela frente um outro factor que não controlamos e nos condiciona: os nossos genes. Dizia Henry Miller que «Com raras excepções, as pessoas não se desenvolvem nem evoluem; o carvalho permanece um carvalho, o porco um porco e o asno um asno

Resumindo e concluindo: se tivermos um bom, ou mesmo um muito bom, Syrah pela frente, será mais difícil a um enófilo prever o seu “comportamento” em garrafa durante a sua evolução do que se conhecermos bem uma pessoa, porque é da nossa família, porque é nosso amigo, ou porque temos uma relação amorosa. Dito de outro modo, é mais fácil prever a reacção de uma pessoa que conhecemos bem, porque já lidamos com ela há bastante tempo, do que pode, em termos de previsibilidade, acontecer com a evolução de uma garrafa de Syrah.

Por isso é que abrir uma garrafa com dois anos, quatro, seis, dez ou mais anos é sempre uma surpresa para o mais bem preparado enófilo. A maior parte das vezes, se o Syrah é de qualidade, acontece uma surpresa muito agradável. Outras vezes, infelizmente, e sem estarmos à espera, uma certa decepção!

A complexidade de um Syrah é maior do que a dum ser humano…!